domingo, 5 de setembro de 2010

Carta de um simples caboclo

Caro Deus,

O que está ocorrendo com o mundo? O que foi feito daquilo que criastes? Não me reconheço em tua criação. Nada mais me desperta curiosidade no homem, mas em muito descubro o medo por ele. Não sabia eu que tuas mãos, que há muito trabalharam na criação de tudo isso o que vejo enquanto lhe escrevo, estariam em descanso um dia. Deus, tu te esqueces de nós ou nós nos esquecemos de ti de uma vez por todas? Quem mais negligencia o outro? Perdão Deus, por minhas dúvidas, mas sou apenas um ser assustado pelas conseqüências de Sua criação.

Senhor, tenho tido dificuldades em encontrar homens bons. Há muito não me recordo de quando vi um homem feliz. Não digo da felicidade trivial, mas felicidade plena daquelas que fazem brilhar os olhos. Tenho medo do amanhã, confesso. Falta-me fé? Há muito tenho medo do homem, meu semelhante, sabe? Falta-me a coragem? Não sei mais onde me esconder, Senhor! Dentro de mim? É o que tenho feito. Não quero aqui simplesmente lamentar. Digo a você simplesmente o quanto sofro por isso, pois tenho certeza que estás muito ocupado e, por ora, esquecestes de nós. Mas olhe novamente para nós, Deus! Sei que são muitos os mundos, os planetas, e é grande o universo, mas tende piedade de nós, tão pequeninos aqui na Terra.

Quando oro, quero sentir a certeza de que estás ali, no silêncio de meu coração e no desalinho de minha mente. Senhor, se tiveres tempo, venha nos visitar um dia e verás que tal desespero é motivado por uma enorme sensação de desamparo. Agradeço pela natureza que criastes e que nos dá de comer. Agradeço pela terra, que nos sustenta os pés e nos dá os frutos de nosso trabalho. Agradeço pelos animais que nos fazem relembrar que ainda podemos ser honestos com a natureza, mesmo tendo de usufruir dela. Agradeço pelas religiões, pois graças a elas sabemos que a tolerância e o respeito devem superar qualquer discussão - embora não tenha sido historicamente assim. Agradeço por poder falar contigo, pois assim sei que não estou só. Agradeço pela solidão que às vezes me persegue ou insisto, pois assim sei que tenho que ser melhor a ponto de nunca perder a fé e cobrar de mim sempre ser uma melhor companhia para mim mesmo. Agradeço pelas crianças que nos fazem perceber que a vida é mais bela que nos parece e que somos culpados pelo mundo que construímos para elas. Agradeço pelos homens de bem que nos fazem perceber quanta culpa temos pelas mazelas de nossos dias e o quanto somos seres egoístas que tanto ainda tem por melhorar. E agradeço-te pela paciência para conosco, pois assim sei que não precisamos ainda perder as esperanças no homem, afinal ele é filho Teu.

Desde já, agradeço-te por ter lido essa humilde carta.

Desculpe-me se deixei transparecer alguma falta de fé, mas sou apenas um humano, Senhor. Saiba que sempre confiarei em ti.

Não te esqueças de mim nem de meus irmãos de caminhada.
Ass: um de teus filhos. 
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

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