O que mais gosto de fazer? Escrever! Se tenho algum valor por isso, que seja. Apenas escrevo, pois letras distraem-me. Apenas gosto delas, pois elas não têm pensamento ou sentimento ou, ainda, julgamento, eu que os tenho por elas. ''Pensar é estar doente dos olhos'', disse Fernando Pessoa. Apenas tenho essa doença em mim; as letras não enxergam! Que elas apenas continuem sendo letras; uma a uma, formando palavras, sentenças, textos e poemas.
Se tem algum valor o que escrevo? Não importa, pois apenas escrevo para tirar de mim as letras que perambulam em minha cabeça. Na forma de pensamentos, elas vagueiam como sintoma de uma eterna doença dos olhos que insisto em ter. Porém, pouco isso importa. Saúde e doença são termos relativos. O real é que preciso fechar o diagnóstico do que sou em mim mesmo, não aos outros - e farei isso a partir dos olhos que trago comigo, doentes ou não!
Vejo e penso, falando comigo mesmo. Penso e escrevo. Escrevo o que foi visto e pensado. Algo estranho, mas é isso. Uma coisa está na outra. Talvez eu precise de um colírio que deixe-me com a mente muda. É isso? Talvez, pois o que torna-se texto é a fala da minha mente que pensou através do que os olhos viram. Sigo esse raciocínio e concluo dele como sendo-me verdade, mesmo que soe sem sentido para outrem. O que me importa é eu ter sentido em mim no que sou. Fecho, todavia, meu diagnóstico: tenho os olhos doentes!
Posso considerar que cada texto é um parto, pois ali nascem idéias que foram fecundadas a partir do que os olhos viram - olhos do corpo ou da alma. Daí, as idéias cresceram e desenvolveram, para, então, nascer em uma oportunidade à frente. Escrever, portanto, é dar voz aos pensamentos daqueles que têm os olhos doentes. Escrever é pintar, desenhando na forma de letras, uma a uma, letra a letra, frase a frase, uma alguma coisa que se perfaz em texto. Escrever é regurgitar a realidade mal digerida, indefinida, vaga ou eliminar algo já bem digerido, pensado, concluído. Como diferir um do outro? Não sei! Definir o que é de fato real e digno de ser tido como conclusão ou como verdade não me pertence, nem me cabe. Escrever, para mim, é um ato de alívio egoísta meu - apenas isso!
Não entendo, das letras, o que delas me ocorre dentro de mim. Apenas sei que elas somam-se, uma a uma, não permitindo-me calar a mente ou fechar os olhos ou parar a mão que as transcreve. Das letras, apenas as sei ler: letra a letra, frase a frase, texto a texto! Os mesmos olhos que geram pensamentos são os que leem o que tornou-se escrito. Assim, letra a letra, a verdade se torna mais palpável, mesmo que em rasuras. Quem sabe um dia elas terão significado concreto e definido para mim e para o mundo, afinal, elas são apenas letras e eu sou apenas um domador de pensamentos meus.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

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