domingo, 25 de agosto de 2013

Pierrô


É estranho pensar que frases tortas possam endireitar qualquer coisa que seja: amizades, amores, relacionamentos como um todo. Frases tortas, o dito por não dito, estremece relações, pois traz em si o mistério negativo do cinismo e, por vezes, o requinte da crueldade velada. Frases tortas? Não servem de nada.

Ontem parei e vi um casal de mãos dadas, trocando farpas. Eram dois amantes? Amavam-se? Aparentemente, tentavam impedir que os de seu entorno percebessem o constrangimento óbvio, mas era inevitável. Eu, ali, estava atento. Como fechar os olhos para aquilo que salta até eles? Não permiti-me insistir em manter-me na mesa. Ergui meu corpo da cadeira fazendo inevitável barulho com algo de grosseria, confesso. Sai, como se diz, pela tangente. O silêncio, devido minha saída, foi ensurdecedor como se eu ali fosse quem estivesse a constranger o casal em farpas trocadas em plena luza daquela noite... Que importa quem entendeu-me de mal jeito?

De pé, sentei no balcão do bar, eterno amigo dos solitários e reflexivos. Não mais olhei em direção à mesa que mantinha, provavelmente, agora, como assunto a falta de educação daquele que saíra sem despedir-se. Pelo menos, caso eu tenha virado o assunto do momento, já nisso eu teria tido alguma utilidade, uma vez que, cessada a discussão entre o casal de amantes, era minha intenção ver todo aquele cenário de falso amor cessar e a paz reinar por sobre eles e, claro, por sobre a mesa já tão demasiado úmida devido às tantas gotas de álcool ali já derramadas...

Sentado, sozinho, ao balcão do bar, aos goles de mais outras e outras bebidas, refleti sobre o amor e não o entendi. O que é? Quando se tem? Quem o tem? Não conclui nada, de fato! Eu mesmo não o tenho, mas quem se diz o tendo, será que tem de fato? Será amor algo que permita-se às desavenças constantes? Será amor aquilo que causa dores desnecessárias, em trocas de farpas às mãos dadas, em plena luz de uma noite clara de verão? Não sei. O que seria o amor, talvez poetas já o tenham tentado definir, mas todos eles morreram assim como suas definições. Talvez, possamos pensar que o amor é como carne: cessada a energia que corre em seu interior, morre! É necessário o sangue para avivar a carne e mantê-la fresca, assim como a vontade de querer bem ao outro, antes de mais nada, é necessária ao amor para poder mantê-lo vivo e, acima de tudo, real. Nada além, talvez... Mas como tantas outras, essa é apenas mais uma tentativa de definição, sem sentido algum...

Amor, antes de mais nada, é sonhar com a felicidade do outro e morrer, mesmo que às custas disso, sabendo-se feliz por ter proporcionado algum sorriso tão esperado e devido, no rosto de quem se ama. Quem ama e faz, em seu ''amor'', sofrer a amada, não ama, penso eu! Nem a amada, nesse caso, ama ou ao amado ou a si mesma, aceitando-se ser pisada e sofrer assim. Amor é troca de bens eternos como os de carinho, de aconchego, de sossego... Amor é paz manifesta em beijos, abraços, amores, até mesmo em ''amassos''. Deita-se nos braços, deleitando-se em abraços sólidos em que ecoam, peito a peito, os corações que fazem-se, naquele instante, tão imensamente felizes a bradar. 

Amor não é troca de bens materiais, ou troca de quaisquer outras coisas que não sejam: amor, amor, amor... Amor é, acima de tudo, saber amar e saber-se amado! Mas temos sabido? Não! Não temos sabido! Estamos perdidos no mar de desamor desse mundo moderno em suas apologias e culto ao dinheiro, ao corpo, às máscaras de falso-amor que vemos nos quatro cantos por onde estivermos... Habitamos um baile de carnaval repleto de máscaras, sim! E, nesse processo da busca por definições e pelo amor propriamente dito, há pierrôs demais por aí espalhados, afinal, somos ou não o país do carnaval?

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

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