quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Ainda escravos

O povo brasileiro, sonhando com a redenção, 
Sonha trazer para si um futuro nas mãos...
Chegou a pensar ter superado os tempos de tensão,
Mas refrescou sua alma em açudes vãos.

Ainda preso no tronco, vê o senhor extrair seu pranto.
Nas chibatadas do tempo, perdeu o couro no chicote.
Antes já chorou mais; hoje cai apenas pelo canto
Uma última lágrima que chegará ao chão, com sorte.

Cansado como o preto velho sábio, de bengala,
Fumando cachimbo e aproveitando seus dias, liberto,
Vê dentro de si a esperança, morrendo, que cala,
Olha o futuro sem ver seus rebentos livres, incerto.

A luz do amanhã que acreditou, por ora lhe cega.
Deixaram a névoa do engano ressurgir, sorrateira.
Ao netinho, apavorado, ainda escravo, ele nega
Que segue de novo o povo sem eira nem beira.

O caboclo, matuto cansado, vê seu senhor passar,
Ileso, com chicote nas mãos, babando de alegria.
Entendeu agora ter optado cedo demais por se calar
E que ficará aos seus rebentos sonhar à luz do dia.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

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de setembro de 2015; texto disponibilizado inicialmente em outro blog

Adendo: o povo é retratado a partir de suas origens negras, povo que tanto sofreu, sonhando coma liberdade, a luz de um novo amanhã. A sensação de esperança de um dia ver as desigualdades seculares no país são novamente escassas no tempo atual. Pensou-se por um momento que poderíamos estar ficando livre dos "senhores", mas não. Eles ressurgem sempre enquanto nós, seguimos escravos com outrora éramos - ou nunca de fato deixamos de ser.

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