Qual seria o segredo da existência? Não raro, temos essa pergunta - ou alguma semelhante a ela - passando pelas nossas cabeças. Isso é um benefício de ser humano. Os outros animais, ao que parece, não têm essa capacidade. Apenas existem e seguem suas rotinas ditadas pelos seus instintos. Nós, pelo contrário, humanos que somos, temos nossos anseios e nossas dúvidas. Temos, em última análise, nosso livre-arbítrio. Isso nos torna especiais? Não. Apenas somos diferentes. E ter livre-arbítrio nem sempre é das melhores coisas para se ter. Quem nunca parou para pensar assim, pense comigo: não seria melhor que agíssemos sem escolhas, que tudo fosse ditado por instintos e que não precisássemos parar, pensar, entender o que a vida espera de nós para, dia após dia, existirmos fazendo nossas escolhas? Não seria melhor sermos como os demais animais: agindo pelos instintos e pronto? Não sei, mas tenho pensado que essa coisa de livre-arbítrio é ótima quando não estamos refletindo o suficiente. Será?
Quando paro e penso: "eu deveria ter tomado outro rumo na vida? ou "eu fiz bem em ter escolhido isso ou aquilo?", fico num momento tenso. Acho que eu estaria bem mais contente se não ficasse me perguntando coisas assim. Geram ansiedade tais perguntas. Sou sim, e muito, um ser ansioso. E a multiplicidade de escolhas não ajuda em muito. Dessa forma, olho os outros animais com uma certa inveja. O cão não quer pensar em mais nada a não ser latir quando não gosta de algo ou alguém e comer. Para isso, abana o rabo e tudo fica certo. Vez ou outra, também apenas pelo abanar do rabo e de pequenos latidos felizes, ele quer brincar. Pronto. Seu dono já entende e tudo fica certo.
Cães não precisam pensar muito - se é que pensam. E são felizes assim. Os gatos são um pouco distintos. Querem coisas e manipulam a afetividade do dono de acordo com suas intenções. Se precisam de comida, entrelaçam pelas pernas do dono e olham com olhar de "coitado de mim...". O dono percebe que, naquele olhar, está ali a vontade de comida, ou de afeto e logo se entrega. Saciados de carinho ou de comida, eles seguem suas vidas. Não raro, somem da casa, desaparecem dos donos e só voltam horas ou dias depois... Os gatos também não precisam de muito para receber sua contra-partida da vida.
E os outros animais? Seguem também seus instintos e vivem assim muito bem! Seguem sem pensar sobre as escolhas que têm de tomar. As formigas não querem pensar que estão trabalhando como escravas, de pouco e pouco... Seguem trabalhando carregando sofridos fardos, sendo diminutas e despendendo todo um esforço enorme em sociedade sem refletirem muito acerca disso. As abelhas vivem tomadas pelas responsabilidades da colmeia e trabalham diuturnamente para manter aquilo ali, sem pensar, sem ver se estão sofrendo ou não naquilo. Não há debate sobre felicidade ou infelicidade no mundo animal para além da esfera dos "animais humanos". Dessa forma, entretanto, somos feitos para ter que escolher mediante nossas intenções, não meramente mediante nossos instintos - embora os tenhamos. Assim, escolher um prato de comida não é simplesmente um ato de pronto. A gente pensa, escolhe a melhor pedida a depender do preço, do tipo de refeição etc. Não há uma "ração" que nos sustente e pronto. Precisamos escolher a comida pelo cheiro, pelo sabor, pela hora do dia em que vamos comê-la. Difícil? Aparentemente sim.
Se fôssemos escolher apenas por instinto, talvez não sobrevivêssemos. Temos mesmo que pensar. E, pensando, vamos nos entendendo conosco mesmos. Aprendendo o que mais nos apetece, o que menos nos agrada. Não raro, passamos uma vida inteira sem fazer escolhas diferentes. É comum haver pessoas que optam sempre pelas mesmas coisas, pelo mesmo pedido do cardápio, pelas mesmas cores da camiseta... Há os que vivem sempre mudando. Ora o paladar para comidas e bebidas, ora as cores da camiseta, ora o tipo de carro... Não?
Se fôssemos animais comuns, não aprenderíamos tanto diariamente sobre nós mesmos. De fato, nem são todos de nós que pensam sobre si, sobre os aprendizados da vida humana. Boa parte de nós apenas vive e segue em suas obrigações. Mesmo assim, diferimos dos demais animais, pois, apesar de tantos de nós terem uma vida regrada, guiada por obrigações e demandas repetidas, ainda nos existe a possibilidade de despertar e agir diferente. Mas isso não é comum a todos. Não somos muito formados a debater coisas e muito menos fomentados a entender de nossas peculiaridades humanas - digo das coisas espirituais, morais etc. Somos preparados desde o berço para escolhas predeterminadas. Apesar de sermos livres, nos ditam os destinos desde cedo. Algo daquilo que temos por "inconsciente coletivo". Não? Essas escolhas já são determinadas muito antes dos momentos em que iremos nos deparar com elas. Como assim? Vamos pensar:
Por exemplo: fazer faculdade é uma escolha! Algo opcional. Mas que colocamos como fardo já quando crianças quando perguntamos: "o que você vai ser quando crescer?". E meninos e meninas se veem sonhando com carreiras de astronautas a médicos, professores a jogadores de futebol. Mas somente quando as crianças crescem é que terão mesmo de escolher. Porém, se a criança nos olha e diz que não fará faculdade, pronto! Todos estranham e se perdem. Acreditam que há ali um jovem rebelde. Nem pensam se a vida dele(a) seria melhor sem um curso superior. Quem sabe ser mesmo jogador de futebol não faria meu filho mais feliz? Ou quem sabe se ele fosse um agricultor comum que tivesse no plantio e no cultivo de hortaliças sua parcela de felicidade na Terra?
Há muita felicidade além dos muros de faculdades, mas não estamos preparados para isso ainda. Dessa forma, instintivamente, somos doutrinados a nascer e crescer, terminando os ensinos primário, secundário e depois terceiro grau... Terminada a faculdade, temos a escolha da profissão comum ou a escolha de seguir na vida acadêmica com mestrados e doutorados. Pronto! Roteiros traçados. Predeterminados. Mas isso é quase "instinto social" uma vez que é socialmente imposto! Não? Instinto é algo interno, do ser, do animal, mas o "inconsciente coletivo" - as coisas que a sociedade espera de nós (e para nós) - é quase um instinto imposto. Algo que vem de fora e nos empurra por caminhos. Quando vemos: onde estamos nós em relação aos nossos sonhos?
Nesses dias, fiquei observando crianças brincando. Elas riam e aproveitavam o momento de brincadeira todas juntas sem esperar nada daquele momento a não ser exercer a felicidade que lhes é própria. Em momento algum havia ali algo que não fosse alegria. Crianças não tem ódio, ou preconceitos, ou tristeza. Se algo disso existe é porque adultos já "adoeceram" essa criança com medos, preconceitos e ódios seus. Crianças são seres alegres na pureza total que a alegria tem. Mas, de fato, com o tempo, retiramos essa pureza e colocamos como "alegria" os degraus que obrigamos jovens a seguir, a subir. Crianças são ensinadas a crescer logo, tornarem-se adultos promissores enquanto jovens prodigiosos que devam ser. Dessa forma, a criança logo logo será cobrada sobre ter excelentes notas, a competir com os que eram amigos delas e a se cobrarem ser melhores que os outros. Pronto! Quando fazemos isso, eis que estragamos um pouco o futuro da humanidade.
Criamos na lógica do parágrafo anterior, naquela criança - aquele ser inicialmente puro e feliz - a demanda por competir e ganhar. Sempre ganhar e ser melhor que os outros. Obrigamos crianças desde cedo a aprenderem que subir degraus, sofrer para, no sofrimento, conquistar coisas que todos esperam, haja nisso sua felicidade. Mas e a criança feliz que existia? Ela permanece? Não sei. Mas vejo uma enormidade de adultos infelizes formados nessa lógica de competição e de "degraus" para se escalar... E, disso, apenas vejo uma enorme questão sobre: é bom ou não ter direito a escolhas? Os instintos nos ditam ordens ou o olhar da sociedade é que nos serve como instinto? Entendem? Somos dotados de livre arbítrio mas, desde cedo, temos os olhares e cobranças da sociedade nos ditando o que devemos ou não fazer. Isso é muito pior do que existir apenas seguindo instintos...
Afinal de contas: nem eu mesmo entendo minhas dúvidas. Mas, insisto em duvidar da vida, das coisas, dos hábitos, dos "instintos sociais impostos" e, perguntando para mim mesmo sobre a relevância de tudo, acabo entendendo algo mais de mim e algo menos do mundo. De fato: procurando respostas, encontro mais e mais perguntas. Talvez seja instinto meu perguntar. Mas a vida não tem me explicado tanto... Por isso, sigo perguntando e esperando algo, mas não sei bem o que esperar.
Quem sabe encontro um guru um dia que me dê todas as respostas quanto ao que vejo e reflito, sem concluir nada? Os cães me ensinam a ser feliz diante das pequenas coisas. Os gatos me ensinam a ser livre e independente. Mas a sociedade me ensina a entender que: ou me insiro nos moldes ou estou sendo um ser revoltado, inquieto, desajustado. Ops... E me sinto assim mesmo: desajustado! Isso é péssimo! Melhor então me adequar logo à realidade das demandas para a vida em sociedade. Afinal, somos ensinados a dar respostas prontas às perguntas que a vida nos dá e não a perguntar coisas à vida. Preciso me calar. Preciso aquietar minhas perguntas, minha mente... Mas ainda não entendi como.
Ademais, tenho dois sonhos para concluir com o tempo. É provável que eu permaneça tendo esses dois sonhos e talvez não os concretize jamais. Mas quero: 1) me tornar sábio com o passar dos anos - não apenas velho; 2) quero morrer contemporâneo - e não saudosista, apegado a tempos passados e triste por sonhos que não conquistei. Querendo essas duas coisas, ainda vou andando e batendo cabeça no eu que sou e no eu que espero. Quem dera houvesse um instinto em mim que me retirasse dessa demanda de querer ser essas duas coisas. Queria agir sem pensar muito, sem sofrer pelas coisas que deixo de fazer, sofrer por uma espécie de perfeccionismo que insisto em ter... Tento me aprimorar diariamente, mas dói. É mesmo batendo cabeça nas paredes que entendemos que as paredes são intransponíveis. Aprendendo isso, aprendemos a procurar janelas e portas. Elas mostram horizontes. Paredes não!
Invejo em muito os cães, os gatos e os demais animais que apenas seguem instintos e roteiros. Basta a eles abanar o rabo ou receber um afago e um bocado de comida e pronto, estão felizes. Eu ainda não entendi nada sobre a vida e fico perguntando mais e mais coisas. Entenderei um dia? Quem sabe? Até agora apenas entendi que o segredo da vida é persistir caminhando com ou sem perguntas na cabeça. Quanto menos se perguntar, menos inquieto você fica e mais você consegue se ajustar aos ditames sociais. Preciso disso. Ser desajustado é um saco...
Insistir em viver sem aguardar respostas é necessário! A vida é menos sôfrega assim. Só isso! Subir o topo dia após dia das demandas que nos aparecem é o que se faz necessário para ajustar-se à vida em sociedade. Tentar aprender a cada dia mais de si e dos "porquês" da vida, nem tanto. Um dia, quem sabe, encontro em mim as respostas que espero ou acabo sendo o sábio que sonho ser? Até hoje, não encontrei nada disso. Mas o segredo é esse: insistir sempre? Por ora, apenas me oriento a: existir, sempre.
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