Eram dois que muito se olhavam.
Estavam separados, ali, na fila do pão.
O homem se aproximou dela; se beijavam.
Daí percebi que eram um casal, então.
Saíram abraçados, sorrindo da padaria.
Ele, ela; um amor de casal exposto.
E me peguei olhando. Quem não o faria?
Admirei a felicidade - mas me vi indisposto.
Como eu não tinha aquilo que via?
Quais e quantos erros eu houvera cometido?
Errei muito, sim. Era a conclusão que eu trazia.
Era eu consequência de meu erro desmedido.
Paguei pelos meus pães e sai.
Subi as escadarias do prédio e entrei.
Dei boa noite ao porteiro e subi.
Novamente, sozinho, em casa cheguei.
Os cômodos pareciam grandes demais.
Ou será que era minha pequenez falando?
Liguei a televisão para ouvir sons. Quais?
Pessoas quaisquer, avulsas, conversando.
Já criei esse hábito, quando sozinho:
Ligo a TV e deixo os sons saírem dela.
Pode ser que me falte juízo; eu em desalinho!
Mas, por vezes, sozinho, a casa parece-me uma cela.
Condenado à solidão... Comigo, quantos são?
Serei só eu o maldisposto, introspectivo, profundo?
Lembro-me de Pessoa e da metafísica, em vão.
Se ele estivesse vivo, seríamos dois, ao menos, no mundo...
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