quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Pessoas se cansam

 Relatos de um processo individual, observando o coletivo


ALERTA DE TEXTO ÁCIDO E DESAGRADÁVEL PARA A IMENSA MAIORIA!

.

Pessoas se cansam. Isso, todos nós sabemos! Mas cansamos, em geral, daquilo que fazemos repetidas vezes. Cansamos daquilo que nos desgasta. Cansamos daquilo pelo qual teremos que nos esforçar muito. Cada um encontrará em si respostas para a pergunta: "Você se cansou de fazer aquilo por quê?". Para muitos, dizer-se "cansado" disso ou daquilo é apenas a mais corriqueira desculpa para não fazer algo que sabe que deveria fazer. Simples assim. Mas, continuemos...

Na saúde mental, fator crucial à felicidade e prosperidade de um humano, é fundamental sentir a presença do afeto. Tanto quanto a ausência do afeto na formação do ser, lá na infância, adolescência e até juventude, será (ou foi) crucial na formação de um indivíduo com o qual venhamos a conviver amanhã ou já convivemos hoje. Ausência de afeto e a percepção dessa ausência causa danos que podem ser irreparáveis.

Dito isso, sem afeto: pessoas sofrem! Uma pessoa que está em processo de anedonia completa (e complexa), termo que se refere ao sintoma de ausência de prazer em suas atividades, precisa de incentivo, de apoio, de alguém que lhe encoraje. Tantas vezes, as origens disso vêm da infância - criações restritivas, punitivas, mas que não vou me ater à elas aqui.

Seguindo, eis um fado dos pacientes depressivos: os que são privilegiados de início e que têm várias pessoas ao redor (família, amigos, colegas, etc) estarão com praticamente ninguém do seu lado ao final do seu processo de doença - se aquele processo depressivo perdurar. E os que nem tinham lá muita gente por perto? Esses, arrisco-me a dizer: estarão em completa solidão - acompanhados apenas da triste e deletéria presença de si mesmos.

Percebo isso nitidamente. Quando somos requisitados, bem quistos de alguma forma, agregamos pessoas ao nosso redor. Em geral: agregamos enquanto somos úteis de alguma maneira - mas isso é assunto para outro texto também. Nessa sociedade de consumo, líquida, agregamos pessoas em nosso dia a dia mediante a utilidade delas em nossas vidas. Hipócritas que somos, diremos que isso é mentira. Mas, entenderão - alguns de nós - um dia. Alguns, inclusive, sentindo isso na própria pele, infelizmente.

Passado o tempo, caso alguém desenvolva um processo depressivo: tudo bem! Eles ocorrem. Estamos mais evoluídos que há anos e décadas atrás. O assunto é debatido. É politicamente incorreto não demonstrar empatia, correto? Mas, essa empatia descida "goela abaixo" em muitos por aí não perdura o tempo que um processo depressivo dure - casos graves ou refratários, em especial. Dessa forma, um depressivo que passa por transtornos por anos e anos tem algumas alternativas ao ver que nunca se curou nesse tempo e que não sabe se estará curado um dia:

1) ignorar sua doença e suas sensações e fingir, aderindo, no mundo meramente estético que temos, aos sorrisos triviais de redes sociais e afins e nunca tocar naquele assunto "constrangedor" e íntimo seu com ninguém. Fingir alguma felicidade nas redes sociais e se habituar aos comentários clichê como: "que bom ver você feliz!" e coisas assim;

2) seguir calado, executando o silêncio cada vez mais profundo até que não haja mais assuntos possíveis em que se interesse, em que sinta que pode acrescentar algo e que se sinta apto (interessado) a dialogar. Reforçando mais ainda seu processo de isolamento e solidão, num ciclo vicioso que, para tantos casos, culminará em autoextermínio;

3) iniciará um isolamento progressivo, numa espiral de catástrofe que inevitavelmente culminará em mais sofrimentos. Seguirá calado, fingindo, etc, mas, surpreendentemente, terá a sorte de ter sempre uma pessoa (se com muita sorte: até mais que uma) que tenha real empatia, percepção humana/espiritual/emocional e, mais que isso: insistência e persistência. Essa pessoa dirá, de alguma forma, coisas lindas como: "Ei, eu estou aqui e sei do seu sofrimento!". Isso é tudo e, acredito hoje ser a única e real possibilidade de um depressivo grave e refratário se curar ou, pelo menos, sorrir tendo esperanças.

Dessa forma, faço aqui um relato. Devem existir vários outros caminhos, claro. Não quero ser fatalista. Mas sei que, caso mais pessoas leiam, boa parte irá odiar o que está escrito, porém algumas pessoas vão se identificar e se colocar a pensar. É a essas para quem dedico o texto. Esses caminhos acima são alguns que fui construindo e entendendo, observando. Mas, o que quero dizer é: tente exercer a empatia. Sabe aquela pessoa que você um dia chamou de amigo ou colega ou demonstrou algum afeto? Uma pessoa que lhe foi "útil" um dia? Ela de fato lhe é importante? Se sim: supere seu conforto e vá atrás dela. Insista! Mande um "Olá! Saudades de você!". É lindo receber isso quando menos se espera - após tanto e tanto esperar e, geralmente, resultar em nada.

Pode ser que aquela pessoa isolada esteja com vários muros mentais e não vá falar muito de si mesma nem assumir nada do seu sofrimento em primeiro instante. Persista! Tenha paciência! Diga frases como: "Independente de qualquer coisa: estou aqui, beleza?". Ah, uma dica: quando for procurar informações, puxar conversa com pessoas que possam estar, de fato, sofrendo, não comece com: "Está tudo bem?". Pois, ao perguntar isso, tantas delas (ou quase todas) responderão de forma evasiva, pois sabem que a imensa maioria dos que perguntam isso querem como resposta apenas o trivial: "Sim. Está tudo bem!". Então, busque alternativas para iniciar um diálogo.

Entendo hoje que enviar mensagens com conteúdos de, p.ex., músicas que alegrem e que te façam lembrar da pessoa é uma iniciativa excelente. Alguma palestra então? Sugestões de algo que acredite mesmo que vá tocar aquela pessoa, lhe fazer um bem real. Algum texto, poesia... Algo do gosto dela, qualquer que seja ele. Tente! Envie algo com os dizeres: "Vi isso e lembrei de você... Saudades!". Seria um belo início para uma eventual conversa que consolide uma porta aberta para aquela pessoa sentir: "Sim, existe amor/amizade/alguma alma ali. Alguém para quem eu não sou apenas um contato na agenda".

Sentir isso é uma porta imensa que se abre no sofrimento. Saber que alguém, aquela pessoa (mesmo que seja somente aquela única pessoa), poderia "carregar aquela cruz" contigo nem que fosse por alguns instantes, se fosse algo material o processo da crucificação que a depressão e outras doenças correlatas o são, e não apenas uma metáfora. 

Façamos a metáfora da crucificação ser apenas uma metáfora mesmo trazida da história e da Bíblia, se possível. Se ela persistir/existir de fato para alguém que, mesmo que pouco, lhe seja importante: exerça a empatia, o amor, o afeto e, junto disso tudo (e talvez mais importante): a persistência. Nunca abandone alguém. Nunca! Ainda mais se já soube algum dia daquele sofrimento real em que a pessoa está - mesmo que finja que não.

Abandonar sempre será, todavia, uma opção. Como deixei claro: a imensa maioria opta por abandonar e pronto. Ignorar e pronto. Não há pelo que se espantar. Somos humanos, seres hipócritas e primitivos. O que não nos agrega utilidade imediata, dispensamos. Se você é um desses que age e pensa assim, tudo bem. Você não está sozinho/a. Mas, entenda: caso aquele longo e árduo processo de doença, a crucificação, termine em se concretizar, ou seja, caso surja a morte como desfecho - tantas vezes em autoextermínio: não chore! Não! 

Não finja jamais que está arrependido ou que se importava com aquela pessoa. Não diga coisas clichê como: "Eu deveria...", "Eu não sabia...". Isso são discursos retóricos de um sentimento (real ou simulado) de culpa que em nada importa mais. Não sei como funciona após a morte, mas hipocrisia deve ressoar desse lado da vida e do outro que haja da mesma forma: como hipocrisia - algo muito ruim!

Enfim, caso a crucificação de alguém se concretize ao seu lado ou bem perto e se você for desses que sempre optou por abandonar: ignore o ocorrido, passe por ele sem lágrimas, sem nada de falsa piedade, pois seria uma hipocrisia enorme! E hipocrisias doem! 

Nenhum comentário:

Postar um comentário