sábado, 11 de dezembro de 2010

Olhai os lírios do gueto


Corre o menino pelado na rua,
Desdenhando de tudo e todos.
Na leveza de teu ser:
Ele corre.

Sorri para o mundo.
Sorri feito criança,
Pois criança ele é,
Criança sempre foi.

Em meio aos arranha-céus da cidade,
Ele passeia seus olhos distraídos
Sonhando com a infância
Do outro lado da rua.

Como seria lá?
Como ele seria lá?
Com quem estaria lá?
Até quando estaria lá?
Pôs-se a meditar,
Mesmo que criança ele fosse.
Tão pequenino,
Mas tão real acima de tudo.

Via-se distante daquilo,
O mundo dos carros, dos aviões...
O mundo dos computadores,
O mundo das televisões...
O mundo do dinheiro fácil,
Ó mundo hostil...
Por debaixo de tetos de gesso,
Em arranha-céus, os mais altos,
Imponentes como que em total empáfia
De uma pobre e ignorante nobreza.

Ele, criança,
Apenas tinha teu sorriso
E o abraço da mãe alcoólatra.
Mãe essa que,
Apesar de querida,
Bebia por desgosto,
Tentando dar gosto à sua própria vida.


Vida sem esperanças ou expectativas,
Pois as havia perdido há muito,
Quando lhe roubaram o futuro
Tão sonhado em meio
À sua infância problemática,
No gueto da cidade imponente,
Com seus belos e vários arranha-céus...

O álcool era para tua mãe
O refúgio do ladrão
Que, tentando esquecer-se
Dos próprios erros cometidos,
Abrigava-se por debaixo de ''teto''
Temporário e irreal que fosse,
Que lhe servisse de alento
Diante dos medos do amanhã
Ou os medos dos próximos segundos
Na sua vida inútil que levava...
Nascida e criada no gueto.

Caminhava a criança pela rua
Descendo do morro às pressas,
Rumo à escola, ao futuro sonhado...
Morre na calçada,
Saindo do morro
Para a eternidade
Sob um mar de balas
Que, rodeando o céu,
Procuravam um alguém
Que, as recebendo,
Cairia ao chão...
Não pela força da gravidade apenas,
Mas sim pela gravidade dos fatos
E da violência inconteste
A qual ela, aquela criança,
Tanto se habituou a testemunhar.
Caída no chão,
Com a bala no peito,
Caminhou para a morte costumeira,
Porém, não menos triste.

Como sorria,
Parecia feliz antes da morte.
Como morreu com um tiro,
Parecia bandido.
Como parecia bandido
E corria pelas ruas
Em meio à calçada tumultuada,
Morreu - outro inocente!
A sociedade foi quem a matou
Quando a deixaram viver ali,
À mercê das oportunidades,
Em cenários vãs e vis
De um mundo violento,
Em uma humanidade hipócrita,
Com realidades tão contrastantes
E demasiado hostis...

Morre mais uma criança.
Morre mais um na infância
Sofrida e corrompida no morro.
Mas, apesar de tudo,
Nunca morre a triste realidade
Do sofrimento do povo,
Das minorias acuadas
Por um mundo capitalista, fantasioso e falacioso
Que mata as minorias - ou as deixa morrer
Ao invés de erguerem-nas
Para andarem juntas
De todos.
Rumo ao futuro merecido,
Pois, afinal, somos todos irmãos.
Todos iguais.
“Humanos é o que sois”
Diria Chaplin.

Que Deus a tenha com Ele,
Pois nos foi retirada
Aquela criança
Como tantas outras,
Como tantos outros.
''Vinde a Mim as criancinhas''...
Não era isso que Ele pensou!
Não era assim que Ele pensou!

Crianças: corram nas ruas,
Mas não corram por medo.
Corram simplesmente
Por serem crianças.
Afinal: crianças é o que sois!
Nunca corram do medo.
Se ele existir em vós, pequeninos,
Sejam crianças apesar deles,
Sempre!

Tiramos a infância de varias gerações
Com medos de guerras falsas,
Ou fazendo guerras, de fato.
Façamos a paz para breve,
Pois da paz
Conseguiremos o futuro.
Do futuro, conseguiremos crianças felizes,
Enfim!

Não deixem de lado as minorias que sofrem.
Não deixem de lado as crianças que choram.
Olhai os lírios do gueto.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier


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