Em que país vivemos, meu caro amigo? Há muito não sei a resposta para tal especulação. Tento tirar de mim uma meia dúzia de hipóteses, mas nada encontro. Chegaram por aqui, há algum par de séculos, portugueses mal informados quanto ao que de fato era o que viam com seus próprios olhos depois de ouvirem gritos de ‘’terra à vista’’. Após pisarem em terra firme, deram-se conta de que não estavam sozinhos -ou um pouco antes disso. Tentaram ludibriar os antigos e, para eles, primitivos cidadãos nus com uma infinidade de "badulaques". Daí, nascia a propina em nosso país, filha de portugueses e índios que nos fora deixada como herança. Trocadas as figurinhas, portugueses e indígenas puseram-se lado a lado sob um mesmo teto – se é que havia algum teto por aqui naquela ocasião. As índias, possivelmente entretidas em suas atividades corriqueiras, num primeiro momento, acredito eu, não deram muita bola para os homens cheios de pêlos que chegaram pelo mar. Passado algum tempo, cansadas de seus índios nus, os trocaram pelos brancos, também nus. Daí nascíamos nós.
Bom, nossa pátria brotou num solo regado por uma prática antepassada de nossa tão conhecida propina e, não bastasse isso, também da traição de índias em relação aos seus desnudos parceiros aborígenes (Sim, alguém mais exaltado defenderá a idéia de que as índias foram seqüestradas, obrigadas a tal, mas prefiro pensar na traição ao invés da covardia; seria muito duro pensar dessa forma para o nascedouro desse país).
Enfim, anos foram passando. Uma meia dúzia de “bastardozinhos” - meio amarelos e meio brancos - nasciam aqui e acolá, em cima de árvores ou dentro de ocas e cavernas, não sei, mas, dessa ou daquela forma, povoavam dia a dia o solo recém descoberto pelos navegantes lusitanos. Daí, foi um passo para começarem a chegar homens de preto, ditos jesuítas, para catequizar o pequeninos e também os demais – entendam por catequizar aquilo que bem quiserem, pois em muito pouco tinha relação com princípios religiosos ao meu ver.
Somando-se todos os que aqui habitavam, já dava para encher alguns “maracanãs” ou “mineirões”, se eles já existissem. Mais tempo passou e chegou o dia em que algum bigodudo acreditou que essas terras dariam um ótimo quintal. Feito isso, começou-se a plantar cana, café, tabaco, couve, alface, jabuticabas – ou o que mais desse lucros. Árvores das mais diversas espécies que dariam motivo para amplas observações darwinianas na área da botânica. Perdendo-se umas dezenas ou centenas de milhares de árvores, tipo Pau-Brasil, surgiram pés de cana e café e, desses, a “evolução” nos surpreendeu com as árvores de dinheiro. Porém, essas árvores têm características peculiares: as demais árvores davam frutos que caíam bem perto, logo ali no chão, já as árvores de dinheiro davam muitíssimos frutos, porém eles caíam bem longe do pé, em outras terras, ou, mais precisamente, em outro continente e nunca caíam no chão brasileiro.
Nossa cultura e povo foram se firmando por aqui. Nossos compatriotas desceram das árvores, encontraram os portugueses, tiveram filhos, construíram ocas, vilas, cidades, riquezas. Feito isso, mais tempo se passou e chegamos perto dos dias de hoje. Criaram-se várias bandeiras e brasões em homenagem à nossa pátria tão respeitada, tão querida e tão amada – por muitos estrangeiros, inclusive. Fizeram-se hinos e outras cantigas exaltando nosso glorioso passado. Envolvemo-nos em uma meia dúzia de guerras com “ótimas” intenções guardadas a sete chaves. Mais uma dezena de bigodudos estrangeiros comandaram nossas decisões por um bom tempo, porém, para sua irritação, foram empurrados mar afora por alguns enriquecidos descontentes que queriam mandar por conta própria em seu próprio povo. Aí sim, ficamos “livres” – acreditaram as criancinhas que esperavam ansiosas por Papai Noel o pelo coelho e seus ovos de Páscoa, ou algo assim! Feito isso, corremos atrás de novas amizades - Inglaterra (e Europa em geral), mas, principalmente, algum tempo depois, EUA. Ficamos sendo a menina dos olhos do mundo por um bom tempo, antes mesmo de Pelé ter dado seu primeiro chute numa bola ou da Garota de Ipanema ter nascido. Porém, de nossos novos amigos, viramos capachos, servos, escravos – mesmo após termos batido os pés no chão para a abolição ser aprovada no congresso – ops!, não havia esse circo ainda.
Enfim, não podemos deixar de tocar nesse assunto: os escravos. Negros foram raptados, seqüestrados para trabalhar a terra sobre a qual pisamos. Foram mortos, explorados, estupradas, condenados a um castigo por um crime que não cometeram – talvez os brancos da época pensassem que nascer na África fosse crime, pois até hoje os africanos pagam duras penas. Nesse momento, no auge de sua bondade, o povo brasileiro vê surgir uma heroína de origem portuguesa – dizem, tinha até bigodes. Izabel (era o nome dela) liberta os negros para um futuro de escravidão liberada – escravos de um sistema hierárquico, de desigualdades, repleto de segregação e de hipocrisia, mas livres em termos burocráticos, pois, afinal, um papel foi assinado e isso teve tanto valor quanto um dólar queimado.
Sem discussões exaustivas, prossigamos. Nossa bandeira evoluiu e paramos hoje no verde, amarelo, azul e branco com os belos dizeres em preto: ‘’Ordem e Progresso’’. Bom, há muito nosso verde que representaria nossa natureza exuberante foi-nos tirado. Do amarelo, representando nossas riquezas naturais como o ouro, muito pouco nos sobrou - e, do que sobrou, boa parte vai embora. O azul, simbolismo para as nossas ricas fontes quase inesgotáveis de água límpida e cristalina, foi poluído (com as mais diversas cores de garrafas pet que existem) - poluído com a ação dos agrotóxicos que enobrecem os cofres de alguns poucos de nossos cidadãos - ou ainda gasto durante tardes ensolaradas lavando belos veículos BMWs, Audis, Mercedes e alguns fusquinhas, para não ser injusto – num verdadeiro desperdício nacionalmente legalizado. De tudo em nossa bandeira, resta-nos falar dos dizeres: ’’Ordem e Progresso’’, tão belos e tão profundos, mas falam de qual país mesmo? Ah..., falam do nosso país, repleto de dólares nas cuecas ou em malas pretas, passeando de avião ou participando nas mais bem tramadas transações da bandidagem engravatada nacional. De fato, resta-nos apenas o branco de nossa bandeira. Tomara que ele não escureça diante da poluição, nem seja pichado por algum vândalo ou, ainda, seja transformado em panfleto para a campanha de eleição de algum político nas próximas eleições, senão ficaremos sem bandeira. Pelo menos, de nossa bandeira, resta-nos o mastro. Podemos dividi-lo em vários pedaços de pau e, quem sabe, sairmos em busca daqueles que nos roubaram nossa bandeira. Se isso ocorrer, talvez, enfim, possamos um dia nos deitar eternamente em nosso berço esplêndido, de alma lavada, garantindo o futuro de futuras gerações de índios, negros, brancos e, até mesmo, de mais portugueses, ou japoneses ou etc que de fato amem nossa pouco respeitada (até hoje) terra a qual chamamos de Brasil.
Pedro Santos Xavier

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