Vivemos em um país capitalista. Dizemos estar satisfeitos com os atuais rumos da economia. Estamos crescendo (?). Mas, em que ponto isso nos interfere? O que nós, estudantes de Medicina, indivíduos com o sonho de sermos médicos, temos a ver com isso? Bom, seguindo uma série de raciocínios, somos afetados pelos rumos econômicos, direto ou indiretamente, de nosso país.
Há, hoje, em nosso país, cento e oitenta e uma (181) escolas médicas (segundo o “Placar de Escolas Médicas” do site: www.escolasmedicas.com.br). Bastante, não? Pensemos nisso: só no período entre os anos de 1996 e 2009, noventa e oito (98) escolas médicas foram criadas. Dessas, apenas 30 delas são públicas. O que explica isso?
Escolas médicas cobram caro por suas mensalidades. Seus valores exorbitantes, são “necessários”, afinal, formar médicos sai caro - poderia ser dito por algum diretor de alguma dessas escolas. Será essa a questão? Formar médicos é de interesse social. Formar médicos é de interesse de muitos, inclusive, de interesse financeiro, afinal, formar médicos dá dinheiro (talvez por isso seja caro)!
Somos testemunhas de um mercado estranhamente forte na era recente de nosso país pós-ditadura: a criação de escolas médicas pautada em interesses escusos (porém, implícito ou explicitamente, claramente financeiros para algumas dessas). Precisamos de tantos médicos assim?
A reflexão que proponho nesse artigo é: que tipo de médicos estamos formando nesse contexto geral? Estamos, com o aumento desconcertante de escolas médicas pagas, permitindo que o acesso à profissão médica seja definido pelo critério econômico? Quantas famílias são, em nosso país, capazes de pagar para seus filhos valores de mensalidades que chegam a, pasmem, mais de R$ 4.000,00 por mês? O que deve direcionar (e determinar) o sonho a ser realizado de, um dia, ser médico: o dinheiro para se investir nisso ou o sonho (propriamente dito) e a capacidade do futuro médico? Pensemos bem.
Nesse mesmo site supracitado, vemos o artigo de Flávio José Kanter que tem como título: “Como fazer um bom médico?”. Ele nos brinda com uma série de reflexões interessantes e pertinentes. As trarei aqui à medida que minha pouca experiência de um acadêmico do sexto ano de Medicina me permite. Ele salienta acerca de recente artigo publicado no famoso jornal “New York Times”, onde a Dra. Pauline W. Chen discute sobre a forma de ingresso de novos acadêmicos de Medicina em escolas médicas naquele país, os EUA. Segundo dados dela, 42 mil candidatos disputam naquele país, anualmente, 18 mil vagas nos cursos de Medicina. Lá, utilizam-se como critérios de escolha dos futuros acadêmicos de Medicina os seguintes itens: currículo, cartas de recomendação e, saliente-se, exame estandardizado cognitivo. Esse exame é exigido para definir, portanto, quem irá ou não entrar em um curso de graduação para futuro médico. Percebam que o critério financeiro em nenhum momento se fez presente. Apenas o mérito pessoal definiu os admitidos ou não nos cursos de Medicina daquele país. Isso é feito aqui, no nosso Brasil? Não! Em nosso território, infelizmente, estamos selecionando acadêmicos de formas estranhas. Consideremos as provas de seleção, as provas de vestibular e seus critérios de múltipla escolha. Esse critério faz-nos lembrar daquela velha brincadeira de criança denominada “uni-duni-tê”. Mas, definir quem fará ou não um curso médico não é brincadeira de criança. Temos aqui, nas escolas médicas do Brasil, algum tipo de seleção do acadêmico baseando-nos em suas capacidades psicológicas, mentais, cognitivas?
As provas de conhecimento em múltipla escolha são tema interessante para ser revisto pelas autoridades, mas isso não nos impede o direito (e dever) de questioná-las por conta própria. Dra. Chen deixa como mensagem que excelentes pesquisadores podem, sim, ser formados baseados em provas de conhecimento. Algumas escolas querem esse perfil de formando e precisamos deles, médicos pesquisadores, é fato! Mas ela também deixa-nos que: para “formar médicos para prestar assistência a pessoas, a avaliação padronizada de características de caráter do aluno poderia trazer uma nova dimensão, útil na escolha”. Concordo plenamente. E você, caro leitor? Será que uma simples prova de conhecimentos em múltipla escolha define quem está apto ou não a ser médico e prestar assistência a pessoas?
Kanter deixa a seguinte frase em seu artigo: “Eu não voaria num avião se soubesse que o piloto fosse considerado apto somente por ter sido aprovado num teste de múltipla escolha”. Concordo com ele também! Interessante trazermos essa frase para nossa discussão sobre a formação de nossos médicos no Brasil. Será que selecionamos bem quem, de fato, irá agüentar essa profissão que nos impõe como rotina lidar com mazelas e responsabilidades, atuando sob pressão, cuidando da vida de outro ser humano? Deixo a pergunta para o caro amigo leitor. Qual o perfil de médicos que temos formado em nossas escolas?
Da mesma forma para a seleção de novos acadêmicos de Medicina em nosso país, trago a discussão para a seleção de médicos residentes em nosso Brasil. Hoje em dia o “mercado promissor” dos cursinhos preparatórios para residência vem crescendo aos saltos. Isso também dá dinheiro! Será que médicos residentes verdadeiramente aptos ao exercício da Medicina são bem selecionados apenas por provas de múltipla escolha? Atuar como médico requer apenas responder questões enumeradas ou atuar, na prática, para resolver as questões propostas pelo cotidiano? Quando um paciente sofre um infarto e chega até nós iremos pensar em: opção A: chamar um outro médico mais capacitado?, B: sair correndo?, C: seguir protocolo específico de atendimento...? Ou será que “simplesmente” teremos que intervir correndo contra o tempo, tendo a mente sã a ponto de fazermos nosso melhor para nosso paciente, claro, baseados nos nossos conhecimentos adquiridos? O que temos feito de nós, futuros médicos? O que tem sido feito por nós? O que tem sido feito para nós e com quais intenções?
Citando mais um trecho do artigo de Kanter: “Sair-se bem em testes de múltipla escolha prova que o candidato é bom em responder questões de múltipla escolha”. E, pergunto a você, amigo leitor: depois de formado, diante do paciente, como será?
Entendo a necessidade do país em se formar mais médicos para atuarem junto à população, assistindo à sociedade. Mas a pergunta é: queremos formar mais médicos, em número, como critério quantitativo, ou mais médicos com alta capacidade, obedecendo a critério qualitativo? Talvez possamos fazer as duas coisas, mas, seguindo os rumos atuais da realidade das escolas médicas de nosso país, temo quanto a não conseguirmos as duas coisas juntas. Que profissionais queremos? Deixo aqui a pergunta.
Pedro Santos Xavier

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