Certos homens passaram suas vidas lutando por suas idéias, por seus ideais. Lutaram por vários temas; por vários lemas; por várias bandeiras; por vários povos, e em vários povos. Diversos homens! Diversas mulheres! Diversos seres em meio a turbas de descontentes com os movimentos desses, com suas mobilizações em prol daquilo que acreditavam ser certo; diversos homens e mulheres compunham essas turbas, descontentes com o não calar das vozes daqueles “certos homens” que ecoavam para o mundo o que bradava em suas almas inquietas. Benditas vozes! Benditas almas descontentes que lutaram, apesar de todas as formas de repressão pelas quais foram acuadas. Certos homens. Certas mulheres. Lutaram, apesar da relutância em negativa de tantos. Explorados, humilhados, mas com suas vozes em riste, tal qual suas almas diante das humilhações - embora, por vezes, seus corpos tenham se curvado não agüentando mais as dores das agressões sofridas. Elevaram-se vencendo com seus exemplos, com seus argumentos, com suas gotas de suor derramadas pelo trabalho diário em benefício das causas as quais defendiam, as quais acreditavam e davam suas vidas por elas.
Homens, mulheres, brancos, negros. Negros? Sim, negros! Esses últimos, em especial, tão sofridos. Tão sobrepujados historicamente. Servos de alguns em outrora, mas se tornaram livres, porém ainda se fazem sofridos, em uma eterna busca pela independência, desvinculando-se em relação às tristezas rememoradas a cada dia por motivo do passado de sua raça, de seus ancestrais. Tantas lágrimas derramadas pelo sofrimento de tantos negros. Tantos dessa raça que tão pouco recebem, ainda hoje, em prestígio, apesar de tanto terem feito por todos. Sofreram – e ainda, direta ou indiretamente, sofrem – trabalhando, mesmo contra sua vontade, num regime covarde de escravidão, em prol do mundo que temos agora.
Lágrimas! Tão bela forma que Deus deixou aos homens para exprimirem e soltarem pelo mundo suas dores. Lágrimas! Elas não têm cor. Não são negras. Não são brancas ou amarelas. Não discriminam raças. Não discriminam ninguém. São incolores; cristalinas. Imparciais, concluo eu. Choram, da mesma forma, negros, brancos, amarelos, pardos. Dois olhos para cada gente dessas raças, mas infindas são as lágrimas que correm a partir deles, variando tais lágrimas apenas por motivo dos tamanhos distintos dos sofrimentos, nesse caso, raciais. Todos os povos, todas as raças, choram as mesmas lágrimas, com as mesmas cores - tão belamente cristalinas -, mas choram volumes diferentes de lágrimas, choram lágrimas por motivos distintos.
Negros! Tantas lágrimas derramadas na história dessa raça. Tantas que me atrevo a dizer que boa parte dos oceanos são lágrimas negras, ou, melhor dizendo, lágrimas do povo negro, da raça negra como um todo, historicamente falando. Negros foram heróis de outrora, mártires na independência e no desenvolvimento desse mundo atual. Sofreram em suas peles, desgastadas pelas humilhações as quais eram vitimados, as maiores dores, as maiores violências jamais vistas ou, se já vistas, repetidas com total crueldade por sobre os corpos de vários representantes dessa raça, fossem eles homens, mulheres, crianças, idosos. Sim, raça! Dizemos que tem “raça” aquele que luta com dedicação, com afinco pelos seus interesses. Raça negra. Raça de “raça”. Tantos lutaram diariamente por nós todos, em silêncio, testemunhando as atrocidades de suas épocas. Tantos outros se insurgiram diante dos “gigantes” opressores daqueles momentos em que viviam. Tantos morreram derramando suas lágrimas, muitas vezes em maior volume que o próprio sangue que fugia de seus corpos. Lágrimas com sangue. Lágrimas por sobre o sangue. Lágrimas ensangüentadas, repletas de dor pelas violências infindas que sofreram por motivos que não sabiam quais eram. E nós? O que fizemos?
Deixamos tantos sofrerem em vão, pelo suposto desenvolvimento de nosso mundo. Pouco podemos fazer pelos tantos que se foram em meio aos seus sofrimentos e humilhações. Mas hoje, o que fazemos em nome deles? Temos orgulho de “heróis de guerra”, dedicando honras a esses que matavam seus semelhantes, em outras terras, por guerras as quais não quiseram construir, guerras as quais nem, muitas vezes, conheciam os verdadeiros motivos delas existirem. Mas matavam! Me pergunto então: o que fazemos em homenagem a tantos negros que, seqüestrados de seus países, de suas famílias, de suas vidas, foram obrigados a deixar seus próprios corpos e destinos para servirem aos interesses financeiros vis de tantos brancos? Muitos se orgulham, nos dias de hoje, por se reunirem milhões de homens e mulheres homossexuais que se sentem acuados pela sociedade que não os dá valor, que não ratifica seus direitos. Mas quisera eu que esses mesmos tantos homens e mulheres (junto aos demais membros da sociedade que não se enquadrem em meio a esses) se reunissem com esse mesmo afinco, dedicação e orgulho para lutarem pelos direitos dos povos negros, ainda hoje humilhados – não mais apenas negros, nos dias de hoje. Ou que se reunissem, pelo menos, para lutarem pela valorização da memória de tantas vidas de negros desperdiçadas por interesses mesquinhos e financeiros de outrora.
Tantos negros perseguidos, maltratados, humilhados, extirpados de si próprios para servirem a homens que se diziam donos deles. Quisera eu que todos nós estivéssemos preparados para aceitarmos todos os nossos erros cometidos para com essa raça. Tantas atrocidades foram cometidas. Tantas culpas temos nós para com eles – e tão pouco temos feito, ou fizemos, para saná-las. Pobres de nós! Culpados confessos, mas ainda réus sem julgamento devido. O que fazemos nós por todos aqueles que sofreram sofrimentos que nós mesmos criamos? Negros? Indígenas? Outros? Será que o sofrimento negro acabou quando se conseguiu o fim da escravidão? Ou o fim da segregação? Não! Negros ainda sofrem, numa sociedade falsa e mentirosa, onde nas redes de TV apenas raramente vemos um negro em destaque. Muito me enraivece perceber que em um país como o Brasil, que carrega em seu solo tanto sofrimento dos negros, em vídeo de propaganda oficial da Copa do Mundo de 2014, sediada nesse mesmo solo sofrido, não vemos nenhum, sequer, negro em destaque. Não temos negros aqui? Nunca os tivemos? Quem somos nós? Não temos, no mínimo, nem sequer uma dívida de gratidão para com essa raça? Pobres de nós, hipócritas mesquinhos que se crêem dotados de tanta sabedoria e riqueza, mas que não sabemos valorizar nossa história, não sabendo aprender com os erros cometidos e tendo feito tão pouco pelos que lesamos ao longo dos séculos. Pobre ser humano. Pobre homem! Pobres de nós!
Certa vez, um dos homens de Deus, um pequenino, de corpo feito quase que de pele e osso apenas, de óculos com lentes circulares, pregou a chamada - e conhecida em todo o mundo – “não violência”. Esse gigante homenzinho, na luta por seus sonhos, embora seu corpo esguio o fizesse parecer fraco, era um leão, um baluarte da luta pacífica, que vencia seus algozes pelo poder da surpresa e beleza advinda das palavras. Um homem que fez de sua vida um exemplo. Se chamava M. K. Gandhi aquele homenzinho. Por toda uma vida, pregou a não violência, sua “Satyagraha”. Lutou sem levantar seu punho uma vez sequer, na forma de um simples gesto violento que fosse. Convenceu pela palavra. Venceu pelo exemplo. Deu seu testemunho. Com ele (e como ele), vários outros se insurgiram em meio a uma multidão de desgostosos. M. Luther King, foi um desses. Tanto fez e lutou esse homem pelos direitos dos negros, contra um regime de segregação e humilhação que se baseava numa idéia irracional de que existiria alguma raça superior a outra. Ora, penso eu: se essa raça superior existisse, não seria ela aquela que humilhava uma outra raça – diga-se de passagem, “outra raça” essa formada por outros seres humanos, seus irmãos. Insurgindo-se contra as leis, venceram, Luther King, Mandela e tantos outros sábios e sofridos negros, mas que fizeram de seus sofrimentos e almas inquietas instrumentos para suas vitórias. Hoje, através de seus exemplos, nos são homens de vidas que se nos tornam belas lembranças, sendo para nós tão dignos concidadãos desse mundo confuso de Deus.
Santo Agostinho disse algo assim, certa vez: “uma lei injusta, não é lei alguma”. Isso nos parece belo, mas é bem mais que isso. É uma verdade pura, simples, mas explícita. Entenda quem puder; discorde quem quiser se enganar; acredite quem tiver sabedoria; lute por ela – tal qual Luther King – quem tiver coragem. Ela deve ser dita sempre e relembrada em cada momento, para que não se repitam os erros passados. Que seja repetida e relembrada sempre, como diria o jargão: “doa a quem doer”. Certos homens e mulheres, construindo o mundo a partir de suas histórias pessoais, passaram suas vidas tecendo o manto, o cobertor que aquece o solo da história humana. O tempo e os fatos em si compõem esse manto, sendo nele os retalhos de tecido que completam visualmente o todo. Porém, toda arte composta por retalhos necessita de linhas que os prendam, que sustentem esse todo. Nesse raciocínio, aquilo que sustenta o cobertor que repousa sobre o solo de nossa história são, por assim dizer, as histórias pessoais e coletivas, das raças, dos povos. Os vínculos entre os tempos e fatos com as histórias dos povos se estabelecem e se sustentam por essas linhas entrelaçadas, tal qual numa dança, para afixar, uns aos outros, os retalhos que compõem o todo daquele manto que repousa por sobre a história da humanidade. Tantos injustiçados e sofridos negros, que morreram como escravos; tantos sábios dessa raça, como Luther King ou Mandela; todos são parte dessas “histórias pessoais e coletivas”. Fazem parte das linhas que tecem aquele manto. Linhas negras! Essenciais à nossa história.
De várias formas, nas mais diversas, toscas ou não, metáforas, poderíamos tentar valorizar a importância dos bons exemplos, individuais ou coletivos, que temos em nossos irmãos de caminhada, atuais ou de outrora. Queria eu que todos esses fossem mais valorizados por todos nós, de hoje e do futuro. Queria eu que todos nós nos desculpássemos a cada noite, ao repousar de nossas cabeças em nossos travesseiros, pelos erros cometidos em outrora para com aqueles. Queiramos todos que, num futuro próximo, a totalidade desses bons exemplos, desses heróis, mártires de nossa história, tenham seu devido lugar em nossas mentes, em nossos livros de história, em nossos discursos, em nossas redes de TV. Queiramos todos que façamos mais do que temos feito em benefício de tantos que nos beneficiaram, às custas de seus sofrimentos. Sonhemos, amigos. Sonhemos. Não há lei que possa nos proibir disso. Mas assumamos nossas culpas perante os fatos. E que saibamos aprender com nossos erros, a cada momento e sempre.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier


Nenhum comentário:
Postar um comentário