quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

De que vale?


Naquele velho pedaço de chão, enterrei minhas cinzas, meus restos... Tanto faz! Era apenas o que restara de mim. De longe, uns ainda olharam sem saber que ali eu estava. Pudera! Em pedaços, como seria reconhecido? É exigir muito dos olhos alheios - habitualmente já tão desatentos...

O que mais me entristece é eu mesmo não ter me visto enquanto virava restos, decompondo-me em cinzas. Estava eu, ali, em puro pó, desfeito! Eu passei a ser aquele pequeno pedaço de chão pisado surrado. Passei por muito tempo apenas enterrando em mim coisas! Esqueci-me de mim!

Quis tanto ser algo útil e belo aos olhos alheios que distanciei meu corpo de minha alma, minha ação de meu coração. Passei a agir pelos outros - ou para os outros? Disso, vejo: esqueci-me de mim!

Não posso mais hoje chorar ao ver-me cinzas. Foi a escolha que fiz - mal sabendo ser a que me cancelava! Mal sabia eu estar sentenciando-me a um fim tão torpe...

Sim, sou um mero pedaço de chão contendo as cinzas do ser que fui, ou pensava ser, ou poderia ser, mas de que vale revolver essa terra, catar as cinzas se é que ainda seja possível? Delas eu conseguiria montar o "eu" feliz que era, o "eu" feliz que planejei ser? Acho que não! Cabe-me apenas ser pedaço de chão, emaranhado de terra e cinzas...

Resta-me talvez esperar a chuva! Que ela bata e, da terra que sou e das cinzas do que fui, tornando-me um outro ser de barro, faça-me ser qualquer outra coisa.

É hora de esperar então a chuva benfazeja! Deixar passar o tempo. Triste é pensar que já hoje eu mesmo possa ter passado, estando fadado a permanecer ali: naquele velho e esquecido pedaço de chão, em pedaços...

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Nenhum comentário:

Postar um comentário