Olhei lá fora. Vi a paisagem assando. O sol, ditoso, queimava tudo quanto havia. O todo ficava ali, parado, esperando pela noite. Um refresco? Uma chuva? Quiçá caberia e haveria de chegar? Mas não, era apenas o sol e o calor que iam queimando tudo.
Muitos olhavam para a luz. Agradeciam. Clamavam pelo dia. Não eram eles que queimavam, talvez. Percebi então que o sol era luz e destruição, céu e inferno, deus e homem. Era uma dicotomia. A chuva, como tudo que é bom (aparentemente), passageira, era por uns esperada, por outros desdenhada, por mais alguns indiferente era sua presença. Chuva era um acalanto aos preocupados! A chuva era, portanto, como a fé. Uns a tinham ou queriam ter achando ser solução, outros nem tanto, outros nem tinham nem a queriam. Uns explicavam sentindo-se sabedores, outros ainda estudavam sobre ela. Uns atribuíam ciência à chuva, outros davam-lhe poderes misteriosos. Uns apenas a sentiam como Alberto Caeiro frente à natureza... A chuva era um manancial de interpretações para mim naquele dia quente, num mundo escaldado não por água, pela chuva, mas pelo sol endemoniado para mim naquele dia.
Sol queimando. Chão queimado. Chuva longe, mas chegando. O homem comum seguia preocupado e atarefado... Realidade insólita de se ater. Talvez seja o sol que queima meus miolos e deixa-me a divagar. Dentro para fora, entretanto, queimam também meus sentimentos, pensamentos. Qual chuva há de abrandar o fogo que me avizinha ou até mesmo me corrói enquanto penso, enquanto sinto? Não sei.
O sol, endemoniado naquele dia, corroía o sossego dos cantos onde ainda havia algo de brisa fresca. A chuva, mal entendida, esperava o momento oportuno para cair, independente o quanto precisássemos dela ou a quiséssemos. A noite, branda, calma, porém escura, era o futuro logo ali, por chegar. Mais valeria então apenas deixar o sol queimar e contar o que sobrou à noite.
Da brisa? Do sossego? Deixe aos ditosos tal qual o sol - que brilham, mesmo que queimem e façam doer aos outros. Nós, tal qual tolos, apenas seguimos confiando na chuva e na fé na natureza, ou em algo que há de existir além do calor que sinto, da brisa que passa, dos pensamentos que esvaem...
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

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