Coloquei meus sapatos mais limpos, mais brilhantes e confortáveis. Saí de casa rumo à felicidade. Desliguei celulares, quebrei relógios, larguei o tempo em casa. Levei comigo apenas eu, minhas lembranças e uma garrafa de rum. Afinal, a vida pode ser dura enquanto sóbrio... A caminhada do desapego é longa - e dura também. Quem atinge a sorte de desapegar-se, torna-se rei de si, das coisas, usufrui da calma que Deus deu e retiramos, por nós mesmos, de nós.
Já na rua, caminhando de sapatos agora já nem tão limpos quanto estavam ainda em casa, vi pessoas, vi animais outros, vi carros apressados... Os deletei da visão voluntariamente. Queria caminhar só. Despi-me dos sonhos, das esperanças, da sorte e azar do passado. Fiz-me novo, a caminhar só!
Caminhei! Rumei ao infinito como barco que tenta descobrir novas terras, sem um norte além da fé, sem uma fé além da esperança, sem esperança além de não esperar nada... Sabe-se lá o que se pensa quando não se quer pensar em coisa alguma.
Estômago rugindo de fome já algumas horas caminhando. Suores novos nascendo do corpo. Cansaço novo surgindo do organismo que saíra da tumba murada; sim, mesmo sujo, com fome, suado e cansado: eu sentia-me vivo. Nada de pensar demais. Nada de sonhar demais. Apenas caminhar e esperar que nada seja esperado; assim, espero eu, que tudo seja tido como novo, sem expectativas.
Não sei se volto. Nem sei aonde estou. Não sei aonde chegarei. Nem sei bem, ao certo, por qual motivo estou caminhando, afinal... Mas o que importa na vida, é fato, é ser estrela cadente que segue a perambular e levar consigo sua luz, seu brilho, mesmo que sinta-se sem caminho determinado. Iluminar! Sim! Que assim seja. Caso haja ainda algo de luz em mim: que brilhe. Se assim o for, quem sabe eu volto, reencontre a todos após encontrar a mim mesmo? Jornada longa, eu sei, mas chega a hora em que precisamos ser errantes tal qual cometa. Perambular no universo que nos é dado, palpável, de chão poeirento, sim, sujo também, conosco vertendo suor e lágrimas, mas buscando levar luz por onde estejamos indo. Isso sim! Ser cometa, mesmo que um dia, chocando-se com algo maior que nós, nos espatifemos...
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

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