Larguei metade de mim pela estrada, moço. Não estava tendo como saber carregar a outra metade de mim. Fiz o que sou hoje só da metade que restou. Adoentado, sabe-se lá... Rezo que deus cure as feridas abertas do mundo. De caminhar, há calo que não acaba mais na minha alma, sabe? Assim tem que ser mesmo, Jesus ensinou. Sinto fraqueza mais fraca que daquela asa branca que desistiu de habitar a terra seca e passou perdida no céu que se via, seguindo um rumo pra além do sertão agreste de caminho aparentemente sem fim, tal qual eu, que havia e há. Em mim, nisso tudo, segue o passado na estrada detrás de minhas costas, perdido comigo tentando esquecer. O futuro a perder-se dos olhos sujos e machucados com a poeira da estrada que ataca a visão vindo do horizonte. Tão distantes ficaram os sonhos e esperanças de mim, sabe, moço? Ah, como é ruim caminhar sozinho de si, sim, te digo: desacompanhado até de si mesmo.
A asa branca bateu asas do sertão e eu fiz o caminho reverso, pelo que vejo. Encontrei-me com a seca. A escassez. Um sertão agreste em mim! Eu aqui, cabisbaixo, seguia a ver o entorno apodrecendo mediante a aspereza de tudo quanto havia. O sol cegava, a noite não abrandava o abafamento. Nada via-se de esperança. Eram por todos os lados carcaças perdidas envolvidas numa carapaça de luto. Memórias de tempos passados, cada uma delas. De tempos em tempos, eu as via de novo. Um cemitério que caminhava comigo, entendi. Bagagens. Um tanto é de verdade, digo.
Sinto coisas, homem, que não te posso confirmar certeza pura. Mas sinto que alguém perto de mim se faz, por vezes. Deixa inquieto todo o eu que há. Tudo desinquieta em cenário torpe sem fim que me consome como doença. Um passado que, calado, ora acorda e grita de ensurdecer. Queria quieto caminhar. Sozinho que fosse, acompanhado de mim mesmo, pelo menos. Dono de mim, não sabe? Então saiba. Diferente é. Isso é. Estar sem gente perto nem sempre é solidão pura... Ruim mesmo é estar sem a gente, sabe? Caminhar triste é aquele sem vida, sem a gente mesmo. Sozinho até de deus, quem sabe...
Caí uns dias na estrada e acordei meio atordoado. Não sabia o que sucedera. Sabia apenas que o chão era terreno ruim de se apagar nele, dormir sono curto que fosse. O chão é duro como meu coração, sabe, moço? Pedra de calçamento acompanha a trajetória do meu sangue. Sabe? Digo! É fato isso que é. Sei mais não de nada. Sei nada demais, também não. Perdi minha carcaça na terra que passou. O vento varreu as pegadas de meus pés deixadas no chão seco. Secou tudo também de esperança que há. Meu peito virou terra de ninguém, sabe? Digo que é. Entendi isso. Terra seca que corre resto de sangue vermelho de raiva e vergonha que há. Ah, seu moço, triste fim é o daquele que se perde de si.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

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