sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Bloco do eu partido

Carnaval é tempo de festa. Festa essa que uns e outros tanto prezam. Sim, é um motivo de alegrias ao povo consumido pelos sorrisos em suas fantasias de carnaval! A rua vira um palco colorido e sonoro... Muito barulho de lá - e nada meu, de cá. Sou um bloco silencioso postado numa cadeira diante da janela de onde vejo todos passarem saltitantes por debaixo e para além da sombra dos alpendres...

Eu, do alto, alheio, espreito a alegria manifesta como quem de uma torre sonha com a escada que lhe fará descer ao mundo, adentrar aos clamores que passam em desfiles de alegria temperada com cânticos populares, tantos, tantos, pelas ruas e avenidas que vejo da janela. Sorrisos saindo de todos os lados. De minha boca, entretanto, apenas ranjo os dentes e mastigo um pedaço de pão dormido com café morno...

Grito comigo mesmo tentando movimentar-me. Quieto como acostumei a ser, fico parado diante da enormidade da festa que passa diante da janela, diante de mim, diante de meu mundo e de meus olhos... Janela aberta, coração fechado, mente alerta, peito vazio, boca em silêncio, dentes cerrados. Quem sou eu nesse bloco que passa? Quem sabe aquele homem barrigudo fantasiado de criança, ou aquele outro metido a super-herói, caricato? Quem sabe então seria eu aquele outro lá do outro lado que apenas vê todos passando, mas que segue rindo de tudo, de certa forma, fazendo parte da festa? Quem seria eu caso lá eu estivesse?

Pego uma outra bebida na geladeira e regozijo-me com a beleza do espetáculo que passa diante da sacada. Jaz na rua uma alegria que ali ficará perpetuada por vários dias... Quem dera o carnaval durasse o ano todo. Quem dera eu fosse um carnaval tão repleto de alegrias. Quem dera eu pudesse fantasiar-me de outro ser? Um super-herói? Um palhaço? Qualquer um seria benéfico, mas melhor ainda seria fantasiar-me ao longo dos dias de homem feliz. Apenas isso bastaria a mim. Enquanto não me vem esse novo eu, fico aqui acompanhando o carnaval que passa diante de mim. Eu, do lado de cá, sigo como o bloco do eu partido, faltando-me a mim mesmo como parte essencial de mim.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Nenhum comentário:

Postar um comentário