sábado, 21 de fevereiro de 2015

Declaração de óbito

Morreu hoje ao curso do dia a pátria brasileira. Sem alarde, foi morrendo aos poucos e tornou-se o cadáver que agora vemos. Tantos venenos foram tomados achando-se serem remédios. Tão esquecida ficou, aquém de nossos devidos cuidados... Por vezes, um excesso de mãos não sustenta nada. Tantos quiseram segurá-la, ampará-la embora poucas intenções reais de bondade tivessem... Antes uma única mão bondosa e firme tivesse sido estendida, mas a enormidade de mãos que nada conseguiu segurar era frágil demais, mesmo sendo tantas e ao mesmo tempo.

Havia décadas já que nossa pátria estava morrendo. Na verdade, passou morrendo todos os dias de sua vida até enfim ser decretada sua morte. Muitos apareceram para culpar esse ou aquele, creditar a um ou outro a culpa pelo óbito, mas a verdade é que todos consumiram a pátria mãe sem terem dado créditos a ela como mãe que foi, como sendo digna de louvores e cuidados como deveria ter sido... Apenas era, agora, passado remoto! Nada fizeram a não ser consumir todas as suas entranhas e hoje culpam quem quer que seja pela culpa conjunta de todos.

Acordarão alguns no dia seguinte bradando remorso, outros ainda acusando pessoas avulsas quais sejam como algozes exclusivos da pátria. Ainda haverá aqueles que dedicarão vários minutos de seus dias para defenderem-se como bons filhos da pátria no velho e tradicional: ''eu já sabia'' ou ainda ''eu fiz a minha parte''... Quando alguém morre, sempre há aqueles que aparecem como portadores da cura ou sabedores dos antídotos, mas nada fizeram - pois na verdade nada tinham a acrescentar além de discursos egocêntricos falsos. Esses mesmos, dotados da capacidade de se auto-intitularem heróis, ainda são os sempre vistos como figuras heroicas, mesmo não tendo feito nada para ajudar em momento algum, é fato. Mas quem quer saber? Uma pátria precisa de heróis. Caso eles inexistam: inventemos!

Morreu então a pátria brasileira! Muitos jornais postaram-se de pronto a clamar por ordem e progresso a partir daquele momento, mas estavam de mãos sujas de sangue e expuseram a saliva podre proveniente da ''baba'' de muitos falastrões trajados de heróis que tanto discursaram em suas páginas. Ah, tantos heróis destrutivos que teimamos em insistir na crença do heroísmo deles... Somos muito pouco espertos para definir heróis e vilões, decerto - afinal, nem mesmo nossa parcela de culpa percebemos, quanto mais da culpa dos outros... Como seremos sabedores? Seremos sim sabedores apenas da parcela de culpa que nos induzirem a pensar. Obviamente, incriminaremos um ou dois, nunca o todo. Aprendemos que é mais fácil cercear a culpa e induzir a justiça. Nunca veremos os culpados com visão ampla e justa.

De tudo, apenas entendo que a pátria morreu em meio a muitas testemunhas. Também muitos foram os algozes, inúmeros vilões, mas nós, culpados como de costume, não teremos os dedos da justiça apontados para nossa própria culpa e, não bastasse isso, aplaudiremos muitos daqueles que envenenaram a pátria, mas aprendemos a gostar deles por tamanha insistência do câncer que é a televisão.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

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