terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Tarde demais


Era dia. Acordou! Levantou-se da cama, solitário. Olhou pela janela e observou a chuva. Era cedo demais para tudo aquilo, mas ele precisava chegar mais cedo no trabalho. Na cozinha, preparou seu café. Deixou a casa com um gostoso cheiro daquela bebida matinal costumeira... Esquentou um pão numa chapa ainda engordurada do almoço do final de semana. Passou manteiga e sentou-se com sua caneca quente na mão.

Parado ali, com o calor do café nas mãos, pensou em que ponto estava de sua vida. Percebeu que estava aquém do que esperava. Quando foi a última vez em que viajou, conheceu pessoas novas e novas realidades? Quando parou sua rotina e sorriu gargalhadas sonoras em situações de prazer alheias ao seu dia a dia tão monótono? Não fazia o que queria, nem correspondia ao que tanto sonhou por anos antes enquanto ainda era jovem. Tantos sonhos ele teve em épocas passadas. O que lhe ocorreu para chegar a tal ponto de hoje ser apenas um homem solitário que refletia sozinho numa cozinha tomando café. 

Hoje, ainda havia esperanças de reencontrar aqueles sonhos? Quem sabe ainda os pudesse seguir? Afinal, sonhos não envelhecem, correto? Mas suas pernas já estavam gastas, sim. A mente, entretanto, como estaria? Aparentemente, sua mente estava velha também. Era uma pena. Ele estava entregue ao seu cotidiano monótono em que tentava convencer a si mesmo ser a realidade necessária que ele deveria seguir. Mais confortável pensar assim, ele sabia.

Saiu de casa. Ligou seu carro e rumou à rua. Ultrapassou um jovem que passava com sua bicicleta e mochila nas costas. ''Ah, a juventude...'' - pensou ele profundamente incomodado consigo mesmo. O que havia feito para perder-se tanto dos sonhos que teve um dia como sendo tão palpáveis, tão reais e aparentemente há tão poucos anos atrás? 

O jovem seguiu na bicicleta e ele, sozinho, seguiu no seu carro para o trabalho; mais cedo do que de costume naquele dia, porém, tarde demais conforme entendeu - era tudo aquilo que ele estava vivendo uma rotina muito distante da liberdade daquele jovem na sua bicicleta. Tudo era apenas sobra, restos do tempo que já havia passado. Era tarde demais? Ele apenas sabia que tudo não passava de uma rotina tóxica que ele havia perpetuado...
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

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