domingo, 22 de março de 2015

Tatuagens do passado

Os dias que foram chamados de ontem permanecem vivos. O passado é obrigatoriamente tatuado em nós de alguma forma, pertencendo ao nosso ser por todos os dias de nossa vida. Isso é notório, embora possamos tentar desconsiderar isso. Muitos conseguem viver assim, fingindo não ter chagas, cicatrizes ou marcas boas e ruins dos dias passados; eu estou ciente das tatuagens de passado que fiz em mim... Pensando no passado como uma tatuagem que fazemos, poderíamos filosofar bastante. 

Alguns tatuam as costas, por exemplo. Esses apenas ocasionalmente lembram-se de sua ''tatuagem'' e a procuram ver. Nunca conseguem ver os detalhes direito, afinal essa marca nem lhes é tão visível ou importante assim aos olhos dos dias de hoje. Outros tatuam o peito e, embora sempre vejam a tatuagem quando estão sozinhos, despidos dos trajes da vida comum e expostos a si mesmos, desnudos, relembram e revivem sua ''tatuagem'' ali exposta aos olhos. Podemos então tatuar aonde bem entendermos e encarar nossas tatuagens da forma que nos for mais cômoda, entendem?

Prosseguindo, há também aqueles que tatuam o rosto todo. Tatuam de tal maneira que seu passado é sua face e toma para si como sendo a primeira impressão, tão notória, que fica exposta a todos. Embora apenas vejam sua tatuagem quando por algum motivo dão-se expostos em algum espelho, conseguem viver aparentemente desconsiderando que seu passado está ali, nítido e marcante, tatuado na face. Essa é a forma como essas pessoas se mostram ao mundo. Alguns insistem em não aceitar serem definidos pelo seu passado, tão marcados e traumatizados. Não aceitam quando são interpelados em afirmativas que denunciem o fato de estarem fixos nele, fixos nos dias de ontem de forma tão notória. Por outro lado, existem aqueles que entendem-se e aceitam-se dessa forma. Entendem que são assim e, de peito aberto, encaram o mundo com face cristalina escancarada marcada pela tatuagem do passado atroz que os consome. Aprenderam a lidar com ele. São felizes? Nunca saberemos. Cada um sabe da sua própria felicidade...

Dessa forma, o passado sempre nos estará presente. Como disse, podemos encará-lo como uma metáfora sendo tatuagem que fazemos em nós. Cabe-nos então definir onde tatuaremos nossas memórias e o quanto elas serão aquilo que nos define, em maior ou menor intensidade expondo mais ou menos o que já vivemos - e o que interpretamos daquilo trazendo ao nosso mundo de hoje.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

quinta-feira, 19 de março de 2015

Sem sombras de remorsos

Espere! Não pises em vão pelo caminho!. Respira, pensa, abranda o coração! Ouve, sente, vê... Espero que tu faças isso!

Sempre que puderes, grite, cante, chore, peça, agradeça, pule, dance, brinque... Não te deixes passar em vão pela vida. Cada passo não precisa ser medido, nem pensado, nem muito menos calculado, mas deve ser degustado, aproveitado como se fosse o último - afinal, pode mesmo ser!

Nunca saberemos qual será a última vez em que daremos um passo à frente. Nunca saberemos se essa nossa expiração de agora poderá ser encarada como nosso último suspiro dado. Disso tudo, espero que tu entendas: nunca é tarde para recomeçar a reler e rever nossa vida.

Caso até o dia de hoje tenhas apenas encarado tua existência como algo a ser cotidianamente superado rotina a rotina, tarefa a tarefa, objetivo a objetivo rumo a um sucesso futuro esperado, peço que pense novamente se é isso mesmo que queres para ti. Pense: caso soubesse o dia exato de sua morte, o que farias da vida desde agora? Caso soubesse quando seria seu último passo, seu último suspiro dado: pense como procederia a partir de então!

Espero que corra, grite, cante, abrace, beije, agradeça, ore, ame. Assim, terás dias para recordar a partir de tantos momentos sublimes. Caso chegue logo seu dia de despedir-se, poderás então repousar no leito e dizer: "obrigado!" - sem sombras de remorsos por não ter vivido aquilo que deverias e um dia (mesmo que apenas quando era criança pura e sonhadora) tanto sonhastes.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier 

Ao João

... e então a vida acabou! Era assim que eu viveria meu último dia de vida.

Sim, era tarde. Cercado da escuridão da noite que já era plena, meus pulmões não mais insistiam em respirar. Dessa forma, meu coração sentindo-se sozinho e desamparado cansou-se de bater. Parou! E eu? Parei também! 

Já era tarde - não das horas já corridas do dia, mas tarde para mim! - e eu queria descansar, deixar aqueles que me amam descansarem também. Tive sorte de não estar lúcido para ver meu corpo morto enquanto era dada a notícia à minha mãe... Eu quereria morrer de novo se eu a visse chorar naquele momento.

Hoje posso escrever e saber que tudo passou, eu passei e, apesar de tudo, a vida continua. Afinal, somos todos águas que passam, que sempre hão de se encontrar, rumo a um oceano que nunca acaba.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

(em homenagem ao amigo João)

A culpa é do amor

O que é a vida senão uma sequência louca de dias que passam? Sim, loucos são os dias; cada um deles. Nós? Como somos? Loucos também por viver a cada dia esperando que ele dure mais e mais... Será que queremos viver além do dia de hoje por medo do que vem após a morte? Será que presamos mesmo a vida ou é nosso medo de não mais existirmos que nos faz querer viver apesar de tantos medos e desgraças da vida comum humana?

Não sei dizer ao certo o que de fato somos nós enquanto seres que vivem - e querem viver. A vida é tão repleta de sofrimentos... Tantas lágrimas jogadas ao chão sem um aparente ou real consolo. Apenas palavras jogadas ao vento que tentam nos acalentar nas dores. Ora um abraço, ora um beijo consolador - daqueles que nos dão na testa e nos fazem sentir amados. Sim! Amor... Ele talvez seja o que nos motive encarar os dias, um após o outro.

Das experiências de quase morte, refletimos muito e aprendemos que há uma vida muito além da que nos habituamos a viver por ser vivida. Perdemos tempo demais tentando ganhar a vida e, quando vemos que ela está no final, tentamos juntar forças para viver tudo quanto aprendemos que gostaríamos de ter vivido, mas não nos demos a esse direito. Porém, nessa hora, temos a triste notícia que foi tardia demais essa vontade, esse despertar. Deveríamos nos atrever mais a viver; correr por um enorme gramado; gargalhar aos montes, feito crianças, enquanto rolamos pelo chão fazendo cócegas na pessoa que mais amamos. Ah, como são bons abraços carinhosos e duradouros - duradouros mais que a eternidade que talvez nos seja destinada conforme esperamos após o suspiro derradeiro... 

Abraçar mais, amar mais, beijar e sorrir mais e sempre! Talvez o segredo que nos fará entender um dia por qual motivo insistimos em viver nessa vida louca seja mesmo o amor. Sim! Quando amamos, não queremos partir. Quando amamos, não queremos deixar aos que amamos o sofrimento. Talvez, no fundo, queiramos viver mais que todos quanto amamos para que nós os vejamos partir antes de nós mesmos. Dessa forma, a dor das perdas seria nossa ao final de tudo, não deles. Não queremos que as pessoas que amamos sofram. Antes nós a sofrer que eles. Seria isso? Talvez. Há muito de ensinamentos no amor e ele sempre nos surpreende trazendo conclusões as mais diversas toda vez que nos pegamos pensando nele.

Talvez seja esse o segredo do não querer morrer apesar das atrocidades que o mundo nos joga na cara todos os dias. Sim, a culpa de tudo é do amor, concluo! Tal qual combustível, ele nos leva a distâncias inimagináveis e, de onde conseguirmos chegar, do lugar onde formos levados, olharemos para trás e saberemos que tudo valeu a pena caso tenhamos vivido com amor, por amor, pelo amor. O mais é nada! Posso estar errado, mas é a conclusão que tiro de tudo. A culpa é do amor!

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

domingo, 15 de março de 2015

Metades de mim

Metade de mim é silêncio.
Metade de mim é cansaço.
Metade de mim é o que penso.
Metade de mim é o que faço.
Metade de mim é abrigo.
Metade de mim porta aberta.
Metade de mim quer viver o infinito.
Metade de mim quer uma morte certa.
Metade de mim sabe o que quer.
Metade de mim se consome.
Metade de mim é o que é.
Metade de mim é o que some.
Metade de mim é vazio.
Metade de mim plenitude.
Metade de mim quer ajudar.
Metade de mim alguém que me ajude.
Metade de mim é precipício.
Metade de mim é água rasa.
Metade de mim é cinzas.
Metade de mim é brasa.
Metade de mim é deus.
Metade de mim é diabo.
Metade de mim vê em mim um início.
Metade de mim vê em mim onde acabo.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

O casal e a praia


Vai o casal feliz pela praia
Como quem não tivesse preocupações no mundo.
Não há medo (nem tristeza) que da cena saia.
Tão rara é a beleza trazida do amor profundo...!

A moça sorri sorrisos largos ao homem
Vendo o mar em movimentos de dança.
Os amantes, em carícias, pela praia se consomem...
E o deus do amor devora a maturidade e os faz criança.

Corre pela praia a moça alegre,
Tendo atrás dela seu homem feliz.
Ambos se completam, não há quem negue!
Têm aqueles dois o que eu sempre quis...

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier



Árvores dispersas


O céu que agora vemos não é o mesmo céu que daqui a um segundo... 

As nuvens que por ora temos tal qual teto não tiram-nos a impressão do céu profundo...

Nós, humanos, que hoje aqui vivemos, amanhã nada seremos já tendo deixado o mundo...

Somos todos sombras de árvores dispersas enquanto ainda a noite não depôs o sol do dia que por ora há.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

quarta-feira, 4 de março de 2015

Algo da felicidade

A felicidade, antes de mais nada, é parte do caminho. Sim, apenas parte! Não a possuímos como um contínuo, algo eterno. Felicidades são pequenas coisas, várias, espalhadas pela estrada e somadas no caminho.

Quem é feliz, não tem pressa. Vive! Não corre, pois admira a paisagem do viver. É grato por cada segundo. As tristezas? Sim, antagonizam os momentos de felicidades, mas dão através dos desgostos que proporcionam a necessária sensação de saber o quanto o gosto da felicidade nos é grato, querido, almejado... Sem as tristezas, a felicidades seria talvez desconhecida. Precisamos das antíteses para concentrar naquilo que queremos o valor devido. Sim! 

Felicidade é então parte do caminho. Consegue-se ser feliz acompanhado ou sozinho, pois é tudo questão de saber olhar ao redor e extrair a beleza, a leveza, o que há de bom nas coisas que se nos apresentam no tempo em que estamos o qual chamamos vida.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier