Os dias que foram chamados de ontem permanecem vivos. O passado é obrigatoriamente tatuado em nós de alguma forma, pertencendo ao nosso ser por todos os dias de nossa vida. Isso é notório, embora possamos tentar desconsiderar isso. Muitos conseguem viver assim, fingindo não ter chagas, cicatrizes ou marcas boas e ruins dos dias passados; eu estou ciente das tatuagens de passado que fiz em mim... Pensando no passado como uma tatuagem que fazemos, poderíamos filosofar bastante.
Alguns tatuam as costas, por exemplo. Esses apenas ocasionalmente lembram-se de sua ''tatuagem'' e a procuram ver. Nunca conseguem ver os detalhes direito, afinal essa marca nem lhes é tão visível ou importante assim aos olhos dos dias de hoje. Outros tatuam o peito e, embora sempre vejam a tatuagem quando estão sozinhos, despidos dos trajes da vida comum e expostos a si mesmos, desnudos, relembram e revivem sua ''tatuagem'' ali exposta aos olhos. Podemos então tatuar aonde bem entendermos e encarar nossas tatuagens da forma que nos for mais cômoda, entendem?
Prosseguindo, há também aqueles que tatuam o rosto todo. Tatuam de tal maneira que seu passado é sua face e toma para si como sendo a primeira impressão, tão notória, que fica exposta a todos. Embora apenas vejam sua tatuagem quando por algum motivo dão-se expostos em algum espelho, conseguem viver aparentemente desconsiderando que seu passado está ali, nítido e marcante, tatuado na face. Essa é a forma como essas pessoas se mostram ao mundo. Alguns insistem em não aceitar serem definidos pelo seu passado, tão marcados e traumatizados. Não aceitam quando são interpelados em afirmativas que denunciem o fato de estarem fixos nele, fixos nos dias de ontem de forma tão notória. Por outro lado, existem aqueles que entendem-se e aceitam-se dessa forma. Entendem que são assim e, de peito aberto, encaram o mundo com face cristalina escancarada marcada pela tatuagem do passado atroz que os consome. Aprenderam a lidar com ele. São felizes? Nunca saberemos. Cada um sabe da sua própria felicidade...
Dessa forma, o passado sempre nos estará presente. Como disse, podemos encará-lo como uma metáfora sendo tatuagem que fazemos em nós. Cabe-nos então definir onde tatuaremos nossas memórias e o quanto elas serão aquilo que nos define, em maior ou menor intensidade expondo mais ou menos o que já vivemos - e o que interpretamos daquilo trazendo ao nosso mundo de hoje.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier







