quinta-feira, 21 de maio de 2015

Obscuro

Eu tenho um trunfo. Persisto. De que isso me vale? Afinal, nem é lá uma boa coisa, decerto, mas é o que tenho feito. Passos dados. Passos a dar. E daí? Aonde estarei? Tanto faz. Estarei aonde for, no estado que for, mas, sei desde já, não valeria à pena caminhar mais adiante. Mas, fazer o quê? Eu persisto.

Olho pela janela e vejo a altura relativa, o chão distante, o céu à espreita... As nuvens se riem de mim. Eu, atravessado por uma lança, começo a ver o chão como um berço adequado. Sim. Atravessado! Apunhalei-me, atravessei-me, encurralei-me... Fiz de mim tantas coisas. O que fiz eu para ser tão mal comigo, ora? Hoje vejo... Mas ninguém vê.

Todos sorriem enquanto eu sigo somente a dar passos entre chão e céu, desviando das pessoas e escondendo-me do olhar de desdém das nuvens que são livres, belas, límpidas. Eu? Obscuro.

Ao dia, correndo sem freio pela estrada deserta, vi-me nu, entregue ao vento. Apenas trazia-me poeira. Ela cegava. Sim! Parei. Nada mais eu enxergava... Eram ventos demais para minhas forças, areia demais para meus olhos, devaneios demais para minha mente já insana, realidade demais para minhas pernas fracas, ossos quebradiços com minha alma podre naquele corpo seco como o chão. As pedras eram mais reativas que eu, naquela espécie de sonho, enquanto eu seguia acordado.

À noite, eu estava ainda mais só enquanto ali permanecia parado! Gritei. Nada. Ninguém. Algum sinal? Não. Até mesmo a noite fugia de mim. Suspeitei comigo que ela revezava com o sol... Quem seria aquele que estaria comigo durante as horas dos dias? Ora um, ora outro. E eu? De cá, seguindo, via tudo como quem caminhou muito tempo até estar à beira de um precipício, mas não sabia mais dali em diante andar. Eu não sabia mais. Não sabia nada. Não sei...
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

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