Eu via a vida melhor no futuro. Hoje o que vejo é só muro...muro. Estão nos prendendo num cárcere ideológico, nas mesmas estratégias de promessas de novos começos de eras. Gente fina, elegante, sincera? Não. Não vejo. Nunca houve, quiçá. Somos gado que se viu entrando entre muros e, hoje, o abatedouro segue logo adiante. A lâmina cortante nos é apresentada como contato com Deus. E dizemos amém, amém, como, decerto, não é a primeira vez. Hipocrisia... Sim! Mas não há tempo que volte, amor... Não há... O tempo voa. Escorre pelas mãos.
Quando vemos, não temos mais tempo! Achamos que conseguimos vencer o medo do escuro, mas não. Estamos sempre amedrontados por medos socialmente incontestáveis que se revezam. Haverá sempre um medo novo a nos dominar e dominar os noticiários - não nessa ordem, sei bem. Tomaram-nos de nós o tempo e a coragem assim como tomam de nós nossas vidas. Somos operários do mercado de enriquecimento de uns escassos seres privilegiados, num modelo que faz metáfora dia após dia à obra prima de Chaplin - e não o contrário: Tempos Modernos! Mas não vemos quem tanto nos aperta e sempre nos ajusta...
Somos peças, meros parafusos, nas mãos de poderosos que alternam-se nos discursos hipócritas. Ora um, ora outro, apertam-nos e prendem-nos nos muros que constroem para estarem protegidos. Eles estão protegidos de nós! Estamos nos muros, bem apertados e fixos. Amedrontados, não queremos nem servir para pendurarem em nós uma ideia de liberdade que fosse como um quadro de bela paisagem, daqueles que ao acordar, batendo os olhos nele, todo o dia ganha luz. Não! A cada par de anos surgem novos mitos, ídolos, símbolos e medos.
Somos uma sociedade simbólica. Temos o simbolismo na bandeira, no hino, no jeito de nos comportarmos diante de nossa história que aparentemente desconhecemos. Engolimos as verdades que nos dão. Assim como fiéis servos dos senhores de engenho, os donos da Casa Grande, dizemos sempre: "Sim sinhô! Sim sinhô!". E completamos: "vosmicê tá bem servido?". E nossas costas doem pelos cortes do chicote. Nossos ouvidos nos fazem gemer quando escutamos sons de correntes... Nossos olhos teimam em chorar quando veem aguilhões quaisquer e troncos...
Ordem e progresso? Quem os defende? E quem nos defende? O grito do Ipiranga? Nossa Independência? A Lei Áurea? A redenção dos escravos e sua plena liberdade para desfrutarem das terras imensas desse país de belo futuro... Onde? Para quem houve liberdade? Qual futuro plantamos nessa terra fértil para uns, morta para quase todos? Quem encerra consigo as rédeas e ritos de futuro pleno?
Margens plácidas? Povo heroico? Brado retumbante? Onde? Somos uma eterna simbologia e não há estudiosos sobre nossas causas. Talvez Freud tivesse nos ajudado se colocasse suas teorias psiquiátricas para dentro da sociologia. Entenderíamos nosso apreço pelo senhor do engenho, o dono da Casa Grande. O âmago do nosso inconsciente coletivo está podre, atirado a insanos pensamentos que nos mutilam aos poucos. Sonhos etéreos de grandeza vã. Somos como o capataz que defendia seu senhor das revoltas dos escravos, achava-se nisso como um bom servo. Entendia-se bem sucedido na vida, mas não era em nada diferente dos outros escravos para seu senhor. Morria como outro qualquer atirado na primeira cova rasa. Ganhava no máximo a benção do padre e um pouco de água tida por benta... Tomamos para nós mesmos as rédeas do cavalo alheio e galopamos pelas terras que não são nossas, aos golpes...aos golpes no cavalo de relincho agônico.
Para nós, restará apenas uma cova, em palmos medida, que será a cota menor que tiraremos dessa nossa vida. Nessas terras que damos aos outros, deixamos que nos tomem. Deixamos que matem-na nos retirando tudo dela - inclusive a nós mesmos e nossas vidas. Nesse solo alheio, haveremos de deixar marcas do povo miserável que somos, que fomos, e da entrega de nós mesmos permitida de bom grado, cabeças baixas dizendo: "Sim, Sinhô...Sim, Sinhô!".
Nos perdoe, terra adorada! Pois nunca a tornaremos nossa! Entre outras mil, serás sempre, Brasil, a terra de outros. Nunca foi, nem será nossa, dos filhos deste solo, oh mãe gentil. Perdão.