Tenho tido sonhos estranhos em meio aos intervalos de insônia costumeiros. Tempos difíceis? Sim. De fato! Mas quem não os têm? Não me orgulho de os ter, mas são guarnições que vamos carregando na alma, pois aparentemente Deus cobra de nós mais por tempos difíceis que por tempos de felicidade. E nesses devaneios, fico entrando nas casas mentais de grandes pensadores. Tento aprender algo. Tento sair da minha pequenez. Quem sabe neles eu encontre respostas que as leituras de religião não me dão?
Afundo a cara, aproximo os olhos numa leitura de Fernando Pessoa. Ah, que pessoa deve ter sido... Quisera eu ter podido sentar numa cafeteria ou numa tabacaria com ele. Sentar, olhar, admirar e, quiçá, trocar algumas palavras. Pegar para mim algo pelos ouvidos e guardar para sempre. Uma frase, um poema declamado? Testemunhar a criação de algo dele? Ah, quem, me dera.
Não sou daqueles que são brilhantes. Por isso, procuro encontrar luz. E, em tantos aspectos, há escuridão demais em mim. Há escuridões, da verdade. Elas brigam entre si, ou coisa assim... Eu fico ali sendo moldura de uma paisagem em movimentos assustadores, não raro, que me corroem por dentro tantas vezes. Solidão... Solidão... Só lhe dão apoio de tabelas na vida. Todos somos tangentes nos sofrimentos dos outros. Nunca conseguimos atingir o cerne, o centro daquele círculo de mágoas, dores e ressentimentos que tanto vemos por aí e que, por azar, às vezes somos nós mesmos esse círculo sôfrego.
E pensando, pensando, tendo comigo algo do Pessoa, leio e reflito na passagem: "(...)tudo quanto pensei me faz cócegas na garganta / e me quer fazer vomitar sem eu ter comido nada!". Tenho náuseas às vezes, sim, ao ver e pensar do mundo, das coisas. Ver que, apesar de tudo, somos todos solitários. Nosso interior é desconhecido até mesmo de nós. Daí, vejo-nos como aquele círculo. Círculo esse preenchido por inúmeras coisas. Algumas pessoas tentam nos ajudar, mas passam no máximo como tangentes. Mas mesmo assim, nos tocam de alguma forma.... Se fossem infinitas as tentativas de ajuda, por tantas e tantas tangentes, seríamos um círculo rodeado por uma estrutura sólida. Não? Acolhidos... No aconchego de um todo.
Vê? Coloque no papel. Faça seu círculo. Vá colocando infinitas retas tangentes... Num dia distante, você verá que não restará espaço vazio para fora do círculo... O entorno estará preenchido pelas cores das retas que tocaram aquele círculo em um ponto apenas cada...Ele está tocado em todas as partes! Está abraçado! Acolhido num mar de tangentes... Mas não é isso que ocorre... São apenas algumas pessoas que passam e nos tocam. Mas deixam sempre um novo cheiro de primavera no ar. Algo muda para dentro daquele círculo vazio que somos? Talvez. Apesar de nunca atingido, intocável que é, nosso interior não é imutável... Pode ir preenchendo-se, mas de dentro para fora... De dentro para fora...
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