sábado, 23 de julho de 2016

Alcebíades

Alcebíades era um homem solitário.
"Ah, Alcebíades, toma rumo na vida!".
Vez ou outra viravam para ele e diziam coisas assim.
Alcebíades era um homem solitário a ponto de
nem as palavras cruéis dos outros lhe fazerem companhia.
Reverberavam dentro dele e causavam sua dose de dor,
mas tão logo ele as abandonava e seguia sendo o homem
insosso que sempre fora, à parte as críticas que se lhe impunham.

Subia as ruas ou descia na mesma passada.
De mãos para trás e cabeça baixa, ia como seguindo um rumo
que ninguém sabia - nem mesmo ele.
Era vazio aos olhos de tantos, coitado!
Pouco conversava de si, mas era daqueles que ouvia muito!
As poucas pessoas que lhe tinham alguma afeição
eram daquelas que usufruíam vez ou outra da sua
capacidade de ouvir!
Ele ouvia. Aceitava. Pouco julgava - ou quase nada.
Aprendeu, pensando consigo - sobre o mundo e sobre si, que
em nada adianta julgar as coisas, pois elas são como são
independente de julgamentos quaisquer.

Alcebíades não pensava que as pessoas poderiam mudar.
Não acreditava nisso! Apenas as aceitava como eram.
Aceitando como eram as pessoas, aceitava o mundo.
E via um mundo cheio de pessoas interessantes, mas cruéis - não raro!
Por isso, andava de mãos voltadas para trás,
pois não queria abraçar o mundo de forma alguma.
Por isso andava de cabeça baixa,
pois não queria contato visual ou outro com nada - e nem ninguém.
Era solitário, como disse.
Era cabisbaixo, decerto!
Era triste? Não necessariamente.
Alcebíades tinha uma noção exata de sua insignificância
e vivia bem com isso, embora lhe custasse, sim, algum sofrimento.

Alcebíades era estável demais, a ponto de ser tido por frio, às vezes, com as pessoas.
Alcebíades era reflexivo demais, a ponto de ser tido por angustiado.
Alcebíades era inseguro demais, a ponto de ser tido por medroso.
Alcebíades pouco entendia do mundo, mas tinha sim suas ideias.
Alcebíades, se era religioso ou não, poucos sabiam.
Mas ele era daqueles que aprenderam a não querer contato com o mundo
por ver (e temer!) o homem como um ser cruel e vil, deveras.
Alcebíades temia que Deus fosse a imagem e semelhança dos homens,
pois ouviu um dia que os homens eram a imagem e semelhança de Deus.
Por isso, Alcebíades temia ao seu modo Deus, mas ninguém conhecia
sua relação para com divindades e religião.
Alcebíades chorava, mas ninguém via.
Alcebíades tentava ajudar quando se via disposto e pronto.
Não acreditava nos homens (e os temia!), mas ajudava quando podia.

Alcebíades nunca quis deixar marcas na Terra.
Se marcou a vida de alguém ou algo, foi apenas em raras memórias.
Contido, pouco abraçava.
Temeroso, pouco interagia.
Inseguro, pouco arriscava.
"Alcebíades, você existe mesmo?" - ele pensou um dia.
E não entendeu mais nada de seus devaneios,
embora quisesse muito mesmo que existisse um outro
Alcebíades como ele em um mundo paralelo qualquer.
Daria sua vida para esse outro Alcebíades viver, decerto.
Quiçá esse outro Alcebíades fosse melhor, mais corajoso, menos inseguro?
Quiçá não fosse como ele - pouco digno de ser feliz como era (e se sentia)...
"Vai, Alcebíades! Vai ser alguém na vida!" - pensou e suspirou.
O dia encerrou-se e Alcebíades ainda estava vivo sendo ele mesmo
- pelo menos era a notícia que se tinha...

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