sábado, 23 de julho de 2016

Sobre o alpendre alheio - e sob o meu

Sob o alpendre da casa vizinha, passam duas pessoas que desconheço.
Elas, muito mais do que eu, desconhecem-me.
Entretanto, nem elas, nem eu sabem de mim o suficiente.
Somos desconhecidos, de fato.
Elas de mim, eu delas. Ma eu de mim, também.
Não estou passando por debaixo do alpendre da casa de ninguém,
Mas olho para cima e não vejo o céu.
Não sinto o amanhecer, pois sinto como se uma eterna noite se passasse por mim.

Noite? Dia? Que mal pressentimento é esse?
Não sei quais horas do dia já passam-se, mas sinto que meu dia está por acabar.
Ah, quem dera... Sinto um alívio quando penso que algo meu acabe.
Minha vida, entretanto, segue.
Sinto que, por debaixo do alpendre que sou, faço sombra a meus devaneios.
Deixo-me preso em cercas e não permito que batam-me na porta.
Fechado para o mundo, numa casa vazia que sou,
olho para os lados e não vejo nem janelas.
Se as visse, o que faria? Procuraria a luz do dia?
Não! Sinto que iria avaliar se eram janelas altas o suficiente para um pulo.
Que pena não ter janelas em mim.
Que pena não poder recomeçar e ser outro.

Que pensa de mim a maçaneta da porta que me fecha?
Nunca a utilizei para dar entrada a ninguém.
Deixo minha maçaneta sozinha, como eu, e inútil - também como eu.
Quem porá fim a mim? Não sei.
Temo que eu precise abrir a porta para morrer.
Caso isso seja necessário, viverei muito,
pois só de pensar que poderia abrir as portas de meu ser
e deixar minha solidão ser ocupada pela devassidão do mundo,
estremeço e sinto que não vale à pena ter uma maçaneta na minha porta.

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