terça-feira, 26 de julho de 2016

Café irlandês

Acordou bravo consigo. A noite, aos goles de vinho, fora demais...
Ele saiu de casa cedo, não querendo voltar.
Saiu num dia e voltou quando já era outro...
Tentou beber o máximo que pôde, achando que
sua consciência e seus medos iriam se apagar.
Não, ele não obteve sucesso!
Por mais uma vez ele acordava insatisfeito.
Dessa vez, como em outras, a insatisfação era
não pela ressaca, mas sim por ter acordado!
Preferia ter dormido para além da conta, para além da vida...
Queria não ter acordado! Pronto!
Mas acordou e a vida já exigia dele respostas.

Primeiramente, abriu os olhos. Cedo ou tarde, seria inevitável...
Olhou para o teto do quarto e para a outra metade da sua cama, vazia.
Ele, também vazio. O que teria a ofertar em mais um dia?
Por qual motivo insistir naquela vida sem gosto, desgastado?
Cansado, fechou os olhos novamente.
Sua cabeça doía aquela dor que vem de dentro e que
não sai por remédio algum que se tome.
A cabeça doía na mesma medida em que não se aceitava vivo.
Esquivou-se de pensamentos de autodepreciação.
Eles, sempre, eram-lhe diuturnos...
Tais pensamentos sempre vinham-lhe a cada amanhecer.
Ele os chamava de "raios que o parta" - numa brincadeira pessoal
em relação aos raios do sol que também chegavam-lhe diariamente.
Pulsavam dentro dele gritando: "morra!morra!morra!".
Mas ele vivia!
Como de dentro de si mesmo saía tanto ódio dele próprio?
De onde surgia aquela voz que não gostava nem um pouco dele,
apesar de seus esforços por ser um ser humano de bem?

Levantou-se. Abaixando a cabeça, viu seus pés descalços.
Quis mesmo pisar o chão com os pés desprotegidos.
Queria sentir o mundo de uma maneira diferente naquele instante.
Insano? Talvez...
De fato, pouca diferença fez.
Mas foi assim à cozinha fazer café.
Era domingo. Não tinha nada para fazer a não ser café.
Queria não ter acordado, mas acordou.
Queria não estar vivo, mas respirou....
Ah, que confusão.
Talvez agora, com o café na caneca, tudo melhorasse.
E tomou seu café!
Não. Preferiu tomar mais dois cafés...
Duas, três canecas... Nada?
Ele era o mesmo insatisfeito de antes.
Resolveu tomar o que chamava de "café irlandês",
misturando uma dose de café expresso com wisky.

Pronto! Duas, três canecas...Já lhe eram cinco, seis canecas de café..
Mas as primeiras duas, três com wisky.
Pouca importava. Duas, três extrassístoles... Pronto!
Sentiu-se melhor e foi de encontro ao sofá já incrivelmente com sono.
"O café não surtira efeito?" Não sei! Teve sono, aquele tonto...
Acho que apenas era sua consciência que, agora, lhe dava trégua.
E o sono veio mesmo, a despeito do excesso de cafeína que nele circulava.

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