quinta-feira, 28 de julho de 2016

Pelo mundo das idéias

Não sou nada.
Não posso querer ser nada.
Nem mesmo poderia pensar em ser qualquer coisa
para além de nada...
Fernando Pessoa que era grande,
dizia-se nada.
Como serei eu a ter o disparate de querer ser algo?
À parte isso, tenho com ele muitos sonhos comuns.
Devaneios? Sim.
Metafísica? Sempre.
Vejo-me, decerto, com ela abraçado, num momento eterno
a ver-me mal disposto diante do mundo ao derredor de mim,
que não passa!
Nem meu mundo nem eu mesmo passamos...
Degredado em uma solidão autoimposta, embotado,
vejo-me cansado e de olhos abatidos olhando
o passar das horas nos relógios de parede
enquanto ladro para as noites do mundo, insone.
Faço autópsias de mim mesmo e retiro algo como
um sebo de dentro de meus sonhos inconclusos.
Sim, sebo! Sim, inconclusos!
Pois, também estava certo Fernando Pessoa
quando disse que o mundo não é
"para quem sonha que pode conquistá-lo,
ainda que tenha razão".
"O mundo é para quem nasce para conquistar (...)"!
Não tenho razão acerca de nada..
De meus sonhos, sai sim aquele sebo sem vida...
Uma substância gordurosa misturada com um suor de esforço vão
que dá mal gosto à tudo!
Que suja tudo! Que deixa as coisas pegajosas e nojentas
enquanto tento colocar meu paladar e meu tato à prova
pelo mundo das idéias que tentam se tornar minhas.
Enquanto tento dar tempero aos meus sonhos,
acabo por salgar, não raro, o meu pranto.
Deixo-o rolar por sobre minha face, a cair em gotas sobre meu peito.
Sou diferente de Pessoa quanto a isso.
Afinal, como ele, consagro a mim mesmo um desprezo,
todavia, de minha parte, o faço com lágrimas.

Ah, que gosto ruim tem tido para mim minha vida.
Minhas papilas gustativas tentam saborear pedaços de sonhos,
mas cada sonho termina por ser insosso ou nojento para mim.
Paro. Penso. Suspiro. Sigo. Sujo...
Sou sujo...
Deitei-me na lama de meus pensamentos vis
e sucumbi a eles, deveras.
Não mais sinto-me com passos firmes.
Olho de soslaio para o mundo ao meu redor
sentindo um cheiro de medo a sair de mim mesmo.
O cheiro toma conta do quarto e não mais olho nada.
Finjo desconhecer tudo enquanto olho a altura da janela...
O chão, tão longe de mim, parece-me um cenário de encontro.
Penso que me jogando da janela talvez eu notasse meu desespero.
Talvez, agindo assim, alguém me notasse.
Mas não sou nada. Nem posso ser nada.
À parte isso, tenho tantos medos do mundo.
Decerto, jogar-me ao encontro do chão frio seria pouco.
As pessoas passariam por sobre mim
ou me chutariam para o canto da calçada.
Não quero atrapalhar as passadas largas de ninguém.
Olho para o céu escuro, identifico-me com ele.
Sou escuro tal qual se dá a noite!
Sou, entretanto, não dotado de estrelas ou de algum brilho, sei bem.
Mas, apesar disso, tenho cá em mim alguns sonhos cadentes
que me passam vez ou outra e deixam algo de luz - embora fugaz.
Sim, fugaz.
Passam logo os brilhos deixados pelos sonhos que tenho.
A euforia inicial dá lugar à uma espécie de tempestade
de negritude do céu obscuro sobre mim.
E eu?
Sim, eu...
Fico cá em devaneios enquanto espero mais sonhos em lampejos.
Sonhos...
Sonhos...
O que colho deles são luzes fugidias que ensaiam um rastro que se apaga logo.
Apago-me com eles, toda vez. Mais e mais...
Pego um cigarro.
Sim, um cigarro!
Olho estranhamente para minhas mãos sem eles.
Como eu poderia ter ignorado a existência dos cigarros um dia?
São companheiros meus que, apesar de tudo,
deixam algo de luz incandescente.
Acendo um após outro e solto fumaças.
Sim, fumaças.
Elas, brancacentas, tomam os ares de derredor de mim
e deixam-me com aquele cheiro que não é meu, mas acostumei-me.
Pego nas mãos uma dúzia deles.
Todos, cigarros como os outros.
Eu sou o diferente ali.
Os fósforos? Sim, todos iguais entre si também!
Continuo sendo o diferente dentro do cenário estranho que se me manifesta.
Meus devaneios insones tomam conta de mim e
um pouco de cinzas cai pela janela, ainda acesas, mas apagam-se antes do chão.
Se eu apagasse antes do chão também, pularia.
Mas não sei se seria bom...
Não sei se seria solução.
Há os que dizem haver vida para depois disso que vivo.
Como seria então que me receberiam lá?
Aqui já sou mais fugaz e vil que a incandescente cinza que morre
a partir do cigarro comum que fumo.
Imagina se no outro lado que haja eu seja menos que isso?
Ora, sinto um comichão que inquieta-me a alma.
Metafísica...Metafísica...
De fato a metafísica é uma consequência de se estar mal disposto no mundo.
E eu? Mal disposto estou, estive, sou, me fiz e me faço - dia após dia.
Minha única recomendação aos que leem isso é: fujam!
Larguem-me no meu texto, sozinho!
Ele não valerá de nada a ninguém
assim como eu também não valho de nada a outrem.
Peguem minhas caixas de cigarro se um dia eu morrer!
Joguem-nas no rio para que nunca mais se acendam.
Os suspiros de fumaça que soltei acompanhado de meus cigarros
foram-me úteis em todos os momentos.
Mas e eu para eles?
Acho que nada de útil pude ser.
À parte isso, mantive em mim tantos devaneios no mundo.

_
poema em homenagem a "Tabacaria", de Fernando Pessoa.

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