sexta-feira, 29 de julho de 2016

Por sob a terra úmida

Tenho uma espécie de cansaço triste.
Ele anula minhas forças
e nubla os céus das paisagens de minha alma.
Tento controlar esse cansaço, essa tristeza,
mas são maiores que eu - e muito mais fortes.
Olho para trás e vejo o quanto cansado eu sempre fora.
Vejo o quanto deveria ter chorado ao tempo devido.
Vejo o quanto poderia ter mudado meus pensamentos
evitando minhas conclusões de hoje que,
enfim, viraram-me fado...
Não sou eu aquele que mais sofre no mundo, decerto.
Nem, tampouco, sou feliz.
Sei bem!
E pensando isso, retiro do mais profundo de meu ser
um filete de esperança de que tudo pode mudar.
Eis que meu cansaço logo em seguida
toma conta dos suspiros felizes que duraram em mim
nada mais que fugazes segundos.
Sou como um balde que poderia estar cheio de tantas coisas,
mas a única coisa que me tornei cheio na vida foi de mim mesmo.
Vendo tudo isso, me pesa uma sensação de degredo.
Sinto-me reles, vil, tolo.
Vejo tantos ao redor desfilando com suas felicidades
e eu, daqui, espreito tudo como se toda minha tristeza
fosse fadada a recomeços.
Olho minha tristeza e nunca a reconheço.
Parece-me que sempre ela muda seus traços
e não enxergo-a mais, não a compreendo,
não a encerro, portanto.
Atravesso ruas esperando que minha vida se encerre
antes de chegar a debaixo do alpendre de defronte.
Mas nada acontece!
Nem eu, nem meu cansaço, nem minha tristeza modificam-se
ou encerram-se
Atenho-me à minha insignificância e respiro profundamente.
Infelizmente, vejo que sou uma coleção monótona
de poeira do tempo, formado numa rigidez insossa
que acostumei a denominar por "eu".
Tolo.
Torpe.
Insano.
Insone...
Deveras, vejo passar as horas da madrugada.
Olho bem na profundeza do relógio à minha frente e tento
fazê-lo aquietar-se ou parar...
Mas tanto as horas quanto eu seguimos.
Quem sabe se o tempo parasse eu pudesse reaver
as decisões e escolhas erradas que fiz e colocar no lugar
novas escolhas, novas posturas, novas atitudes?
Esconderia debaixo da terra todas minhas escolhas erradas - ah, tantas...
Com isso, seria possível que eu fosse
enfim menos cansado e menos triste?
Decerto que o relógio não parará.
Decerto que eu também não pararei.
Resta-me aguardar, mesmo que cansado e triste,
o dia de amanhã que chega-se,
e depois o outro, o outro, o outro...
Tendo nisso, por destino, um fado de existir
até o dia em que poderei repousar em meu cansaço
por sob a terra úmida de um canto qualquer
que será um pouco meu.

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