quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Sobre as diferenças entre a vida que prezo e a vida que levo

Por vários anos de minha vida, desde criança, eu pensava que conseguiria viver de uma forma diferente. Como assim? Achei que conseguiria conciliar amor, amizades, família, compromissos de lazer e laborais com facilidade. Porém, a vida adulta tem me mostrado (e olha que já passei da casa dos trinta anos) que não é fácil programar nada. 

Quando muito planejamos, acho que estamos perdendo tempo de agir. Pode ser isso... Eu penso muito antes de agir e acabo sendo nada impulsivo. E entre impulsividade e coragem há um limite tênue, muito tênue. De tal forma que: se você se acostuma a não ter impulsividade nunca, acaba caindo nas teias da falta de coragem. Dessa maneira, encontrar os caminhos para a vida idealizada fica complicado. E ser fadado a repetir uma vida não desejada acaba sendo o que resta para nós, os não impulsivos e sem coragem. Entendem?

A vida que prezo teria viagens, muitas viagens. Nenhuma ou muito pouca preocupação com bens materiais. Nada de ficar trabalhando para pagar contas e dívidas ou para encher o banco de dinheiro. Não! A vida que prezo seria formada por viagens de última hora, passeios frequentes em parques, a testemunhos do alvorecer diários ou frequentes... Também seria repleta de caminhadas no meio de matas verdes e sob o céu límpido de dias ensolarados. Queria poder desfrutar nessa vida mais olhares para a singeleza das flores, plantas, da natureza. Queria não ter televisão e nem ter notícias, entrando em minha casa, falando de quantas pessoas roubaram ou quantas pessoas morreram em tal ou tal ocorrido catastrófico. Ah, e na vida que prezo eu teria pelo menos um ou dois cães em casa. Assistiria muitos filmes, séries e leria todos, todos os livros possíveis.

Mas a vida em que me vejo preso? A vida que levo? Como é? É repleta de: ''não faça isso'', ''não faça aquilo''. ''Você tem que estar em tal lugar às tantas horas, senão terá problemas...''. Isso cansa! ''Ah, mas a vida adulta é assim!''. Sei! Sei que muitos dirão isso. Mas será que somos mesmo fadados a ser escravos de relógios e calendários por toda nossa vida adulta? Será que não podem ocorrer ''deslizes'' como sair mais cedo do trabalho para poder ver o pôr do sol? Será que não cabem retirar dias de semana de folga para viajar de última hora, com nada planejado, para uma praia ou uma casa no campo? Será que é tudo fadado a obrigações, contas, mais obrigações?

Fico lendo as tirinhas de Calvin, de Charlie Brown, e acabo entendendo a mente de seus criadores. Eles queriam que repensássemos nossos atos de vida. Numa tirinha simbólica com Charlie Brown e sua irmã Sally, ela termina perguntando-lhe algo como: ''quem teve essa ideia de ficar acordando cedo e indo para o trabalho todos os dias da vida?''. É uma tirinha bela que nos faz mesmo pensar. Somos movidos, não raro, a agir como robôs diante das nossas rotinas e obrigações. E, como robôs, somos daqueles que agem sem pensar, sem sentir. Somos daqueles que se acostumam a apenas agir - sem pensar ou sentir os reais motivos e simbolismos dos atos.

Seguindo vidas apenas a trabalho e colecionando riquezas em bancos: estamos agindo bem? Fica para mim a questão. Que as crianças do futuro e de hoje nos mostrem uma resposta! Elas são mais autênticas e corajosas que nós, adultos. Torço para que, antes delas crescerem, consigam nos deixar ensinamentos de como viver mais a vida que prezamos e menos a vida que nos vemos presos.

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