Tento deixar para o mundo algo do que penso, escrevendo. Agonias? Dores? Alegrias? Poemas? Crônicas? O que mais? Não! Não sei qual modelo me afaga mais em minha ânsia humana por paz. Catarse? Sim, um pouco. E me basta! Trazendo algo de ''Tabacaria'', de F. Pessoa, digo: espero que fique, ''da amargura do que nunca serei, a caligrafia rápida desses versos'', num pouco de mim. Eu, que ''não sou nada, não posso querer ser nada''. Mas, ''à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo''.
domingo, 28 de julho de 2019
Ah, a banalidade do sentir-se mal querendo, acima de tudo, não sentir nada, mas sentindo comovidamente tudo.
Esse emaranhado de arranhões na alma, num abraço apertado nesse arbusto cheio de flores e espinhos que é a vida... Ah, viver... E sentir um tráfego de doentes sensações. Num flutuar raso sobre o oceano do cotidiano, com as dores de quem carrega em si a sensação de estar a morrer - e não está?
Se viver é horizontal, morrer é vertical. Se sentir é horizontal, doer-se é vertical. A verticalidade das coisas adoece nossos sentidos e nossas vidas. Mas, desapegados do sentir, muitos não sentem as dores do mundo. Outros sentem. E como doem...
Doem as dores de quem não vê futuro além da hora corrente. Doem as dores de quem imagina que o vivido já basta. Dói a coluna que sustenta o crânio que prende o cérebro que quer correr e fugir. Dói o peito que guarda, em cárcere, o coração que sofre, mas pulsa, pulsa, pulsa... Numa eterna teimosia de querer vencer a monotonia da morte.
A liberdade não nos faz seres humanos livres. O pensar e o sentir, esses sim, nos tornam livres ou presos. Podemos ser livres trancafiados em clausura rebaixados pelos concreto e grades. Podemos ser carcerários em pleno mundo descampado, cheio de portas e janelas abertas para nós.
Por vezes saem os suspiros e eles a romperem fibras do coração que passa a bater mais fraco desde cada momento desse. E o coração, falindo, vai batendo até, num último palpite, alguém perguntar: "o que fizeste para valer tudo à pena?". E o ressoar do pensamento condizente com tudo que seria responder: "nada!".
(Notas de um domingo qualquer, numa praça cheia de gente)
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