domingo, 28 de julho de 2019



Ah, a banalidade do sentir-se mal querendo, acima de tudo, não sentir nada, mas sentindo comovidamente tudo.

Esse emaranhado de arranhões na alma, num abraço apertado nesse arbusto cheio de flores e espinhos que é a vida... Ah, viver... E sentir um tráfego de doentes sensações. Num flutuar raso sobre o oceano do cotidiano, com as dores de quem carrega em si a sensação de estar a morrer - e não está?

Se viver é horizontal, morrer é vertical. Se sentir é horizontal, doer-se é vertical. A verticalidade das coisas adoece nossos sentidos e nossas vidas. Mas, desapegados do sentir, muitos não sentem as dores do mundo. Outros sentem. E como doem...

Doem as dores de quem não vê futuro além da hora corrente. Doem as dores de quem imagina que o vivido já basta. Dói a coluna que sustenta o crânio que prende o cérebro que quer correr e fugir. Dói o peito que guarda, em cárcere, o coração que sofre, mas pulsa, pulsa, pulsa... Numa eterna teimosia de querer vencer a monotonia da morte.

A liberdade não nos faz seres humanos livres. O pensar e o sentir, esses sim, nos tornam livres ou presos. Podemos ser livres trancafiados em clausura rebaixados pelos concreto e grades. Podemos ser carcerários em pleno mundo descampado, cheio de portas e janelas abertas para nós.

Por vezes saem os suspiros e eles a romperem fibras do coração que passa a bater mais fraco desde cada momento desse. E o coração, falindo, vai batendo até, num último palpite, alguém perguntar: "o que fizeste para valer tudo à pena?". E o ressoar do pensamento condizente com tudo que seria responder: "nada!".


(Notas de um domingo qualquer, numa praça cheia de gente)

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