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Aproveite o dia como se ele fosse o último, pois chegará a hora em que isso será uma realidade. Somos, embora isso mereça um texto à parte, de fato, "cadáveres adiados" - tal qual escreveu Fernando Pessoa. Em outras palavras: vamos todos morrer! Mas isso não pode, sob qualquer hipótese, apequenar a importância singular, ímpar de cada vivente.
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Prosseguindo... Ora, aproveitar o dia nos remete à ideia de prazer. Do gozo. E, dessas ideias, alguns entenderão que não deverá (ou não precisará) existir prudência. Espere um pouco, não é isso! Aproveitar pode retomar uma ideia de tirar vantagem, mas não é a questão. Talvez entenderíamos melhor a mensagem da frase latina, sob nossa cultura, se lêssemos: "desfrute o dia". Desfrutar é aproveitar, sim. É usufruir. Tentarei explicar a diferença e postulo uma releitura abaixo:
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É como desfrutar de um café, usufruindo de todo o momento e de todas as possibilidade que ele proporciona. Você está ali degustando, sentindo, esperando cada mililitro dele ser deglutido e aproveitado, de fato. Melhor ainda se houver pessoas para compartilhar daquele hábito... Porém, retomando, sabe que é um instante, um momento da vida, do dia e que as atividades que farão suas horas seguirem seus rumos estão logo adiante e seguem a despeito dele - o seu café! Mas, entendam: em nada isso deveria servir para retirar a graça que é poder usufruir de um café.
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Isso não quer dizer que café não proporcione um gozo, um prazer. Amo café, por exemplo... Há outros/as tantos/as como eu. Mas cito como exemplo apenas. Acho um dos melhores rituais que, como mineiro, aprendi a desfrutar dele. Sentir o cheiro, esperar o pó ser lavado com a água que esperamos alguns minutos para ficar quente o suficiente. Assistir ela passando por entre os poros do coador de pano - de preferência... Excelente! Mas, repito: sei que as atividades do dia estão logo ali. Logo à frente. O momento presente (meu café e tudo o que dele eu possa usufruir!) está diante de mim. O restante (as horas vindouras, as atividades por serem feitas) estará mais além. Mas não agora!
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Desfrutemos do que está aqui, diante de nós! O que virá, virá inevitavelmente - ou quase isso. Pronto! Entendem? Sabem a ideia do: "Entrego. Aceito. Confio. Agradeço". Penso que se aplica ao carpe diem em sua essência. Não sejamos desleixados quanto ao futuro. Não vivamos entregues e absortos na ideia de buscar prazeres permanentes. Não! É imprudente viver entorpecido num ideal de que somente haverá momentos alegres ou que a felicidade estará em cada instante, virginal, presente de maneira eterna. Mais uma vez: não!
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E também não sejamos idiotas vivendo no passado e estanques diante do presente esperando que alguém faça alguma coisa por nós e pelo mundo. Muito cuidado! Mario Sérgio Cortella fala brilhantemente que "passado é referência, não direção". É preciso estar atento aos ensinamentos quanto aos erros do passado. Aceitá-los sendo gratos pelas alegrias que se foram ou que surgiram e ainda existam. Mas e a nostalgia que há? E a retrotopia de tantos sobre a qual escreveu Zygmunt Bauman num livro publicado em momento póstumo? Basta!
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Missão: 1) desfrutar do presente - usufruir de tudo o que seja bom e ruim; 2) entender seus desafios, - entendendo que eles hão de existir sempre e que isso é o que nos engrandece; 3) aprender com lampejos de olhares para o passado - são referência e nada mais. Não há regras, todavia. Podem existir conselhos, dicas, troca de vivências. Mas quem vende regras para essa missão é charlatão!
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Cantaria Caetano Veloso: "é preciso estar atento e forte. Não temos tempo de temer a morte". Isso também é carpe diem... Mas deixemos para outro texto. Retomando e concluindo: desfrutar de cada dia, cada ato, cada acontecimento - bom e ruim, repito. Ter entrega devida, aceitação despretensiosa, confiança indissolúvel - em si, em algo que sirva pelo menos em termos de esperança - e gratidão permanente. Entendo ser a essência do uso da frase carpe diem.
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E você?
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_ texto em homenagem a aprendizados que adquiri e os vejo pelo retrovisor da minha existência.
De Pedro Igor Guimarães Santos Xavier.
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