sábado, 8 de agosto de 2020

Amarga Vida II - releitura

 AMARGA VIDA (II) - releitura de um texto antigo que escrevi

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O dia de hoje é irrelevante. Ou talvez: o dia de hoje é irrelevante? Ele será sempre, tão logo, chamado de "ontem", mutável que é... O mundo é líquido. Flui. Muda. Nunca é o mesmo no instante seguinte. Assim o é o hoje. E, prosseguindo: o que é "ontem" sempre morre(rá). Passado é terra morta que é esquecido um dia (?). Somos feitos então para o amanhã! Ou melhor: somos feitos então para o amanhã?

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Nesse "amanhã" depositamos esperanças, projetamos ideias, sonhos e, mesmo não havendo benefícios nisso, as expectativas. No amanhã sempre guardam-se as consequências das ações dos outros e das nossas; surpresas há por isso?

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O amanhã é inabitado. Está por ser feito. Inacabado. O hoje, entretanto, é habitado por nós e habituado conosco. Transfigura-se em passado logo. Morre, por isso, em tempo ligeiro. Veja, sigo de cá dizendo tolices...

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Não quero que me guardem no passado, é fato. Não posso exigir, todavia, ser o presente de ninguém. Quero, se me for permitido, ser futuro de quem assim quiser. Quiçá ser um eterno retrato de saudade um dia... Mas isso sem ter sido de ninguém? Como?

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Causar saudade por não ter sido de ninguém? Isso. E, por isso, ser memória de alguém. Assim, ser sentida minha falta por eu ter sido ausência. Estranho? Talvez.

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É o momento presente que fica na saudade (que chega a virar chaga) na despedida eventual daquele instante que não saberíamos ter sido, ali, o último. E, de certo modo, essa nossa ausência nos torna eternos!

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Criamos a todo instante mares de saudades. Feridas da "vida, amarga vida" como cantaria Vital Farias. Perdas do ontem, do hoje. Deixadas no que há de ser eterno: o sonho do reencontro num amanhã que há de haver, espíritos errantes que somos.

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É o que aprendi que fica do derradeiro "adeus" que demos/fomos obrigados a dar. A pessoa pode estar no passado, mas sua ausência está no presente. E a ausência tornar-se a pessoa. Fim?

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_ texto em homenagem à ausência.

De Pedro Igor Guimarães Santos Xavier.

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