Mesmo quando te conhecem e sabem de seu caráter de julgador implacável de si mesmo, de sua dificuldade por não suportar (e criar) tantas culpas sobre si, você conversa com pessoas (até profissionais da saúde) e eles taxam seus esforços para viver (ou sobreviver) como uma realidade de "vitimização".
Virou moda! Parte do que se ouve na câmara de eco que se tornou o mundo... Todos repetem e propagam as mesmas coisas. Sofrer é sinal de "mimimi" e não estar feliz, apesar de toda sua dedicação para a superação de si mesmo, é taxado imediatamente - e publicamente! - de "vitimização". Nem dá para argumentar. É uma sentença para além de um diagnóstico equivocado.
Maldito infeliz que construiu a mentalidade "coaching" de tudo quanto há nesse nosso mundo pós-moderno onde tudo é líquido, como postulou Bauman - e até mesmo as soluções o são... Cada livro promete ensinar regras inigualáveis e infalíveis! Todos no planeta são, por essa mentalidade, prósperos, todos são absurdamente capazes, incríveis, sensacionais... Ninguém pode sofrer sem alguém apontar dedos na cara dizendo tantas coisas que poderiam ser resumidas assim: "você sofre porque quer!". Afinal, leram em um livro ou viram um vídeo de alguém falando sobre isso.
Esse mundo que vende a ideia de que o sucesso e a prosperidade são alcançáveis para todo mundo e que não estar feliz agora é sinal (ou comprovação!) de que você não se empenha (ou seja: você fracassa sobre si mesmo!) é uma canalhice tremenda vendida de porta em porta, em mesas de bar, em consultórios de terapeutas, em bancadas de drogaria e livrarias de aeroporto.
Se soubéssemos (e houvesse!) regras para a conquista da felicidade, seria perfeito. Se felicidade fosse algo objetivo e não subjetivo, muita coisa seria mais fácil na busca da eudaimonia dita lá atrás. Porém, filósofos estão há milênios debatendo e dialogando humildemente entre seus saberes sobre todas as coisas do processo do viver... Sem conseguirem concluir nada. Nada!
Gente genial, de todas as épocas, que teve essa humildade de saber que podemos formular perguntas diante da vida e somente isso, pois não haverá respostas e nem, muito menos, protocolos certeiros para questões como felicidade que se apliquem a todos.
Mas, então, surgem uns e outros que prometem passar adiante protocolos e juram vender soluções para todos os males da vida - seja em passos, hábitos, segredos, etc, todos enumerados como um guia para ser seguido e infalível.
Ah, coitados dos filósofos... Leram tanto, dialogaram tanto, morreram por seus postulados tantos deles, mas justamente num país onde a leitura é algo tão pouco corriqueiro surgem turbas de intelectuais dotados de capacidades deíficas que prometem solucionar tudo. Como os filósofos puderam estar tão enganados por milênios sem fim?
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