terça-feira, 13 de outubro de 2020

Castelo de cartas e carta de despedida

Entendo perfeitamente os que desistem de viver. Sim! Há tempos não vejo mais nada do romantismo que anteriormente me encantava a visão de mundo. Hoje, só vejo um vasto terreno - que chamamos Terra - queimando com todos e todas de braços cruzados, aplaudindo - tantos desses focos de incêndio metafóricos. Ódio, avareza, opressão, ignorância, canalhice, falta de empatia, hipocrisia... Fogo por todos os lados queimando o que resta de esperanças.


Quando se conhecem as profundezas de uma depressão, tudo muda na sua visão. Seus olhos não enxergam mais amor, enxergam interesse. Não enxergam mais fraternidade, apenas egoísmo. Não enxergam mais benevolência, apenas vaidades buscando aplausos...

Mais além, quando se conhecem as profundezas de uma depressão grave, além disso tudo acima, você não se encanta nem mesmo com o fato de acordar para mais um dia ou de poder desfrutar de coisas que anteriormente alegravam sua existência. Você detesta viver, detesta acordar e ter que levantar, detesta que as pessoas te procurem ou até mesmo que se lembrem de você. Você não se vê merecedor de nada que lhe traga vida. Você odeia a vida! Você se isola e afasta tudo o que havia de bom em coisas e pessoas ao longo da construção de vida que fez. Você entende que está sozinho e morrerá assim - rezando para que não demore esse momento do fim...

Indo ainda mais além, quando se conhecem as profundezas de uma depressão grave e refratária (ou seja: aquela em que os tratamentos tentados não surtiram efeito de melhora), aí você conhece a essência do ser humano. Você vê nitidamente o quanto você é um estorvo para todos ao redor que fingem demonstrar algum afeto enquanto há algum interesse envolvido. Você vê pessoas que diziam te amar e que te chamavam de amor, amigo, querido ou querida irem embora, uma a uma tão logo se cansem de sua presença enfadonha. Até que você olha para seus dias e não tem mais contato algum com todas elas. Você está só como sempre foi, mas a dor é bem maior nessa hora, momento que alguns de nós vive nesse mundo hoje conectado com futilidades, mas desconectado da dor humana real e letal.

Entendi que depressão grave e refratária não é meramente um diagnóstico, é uma sentença de morte. Não se vive mais desde que uma depressão grave se desenvolve, mas quando ela é refratária, a morte está decretada. Pronto! Resta esperar pelo fim, sobrevivendo de uma forma minimamente incômoda o restante dos dias que há caso não haja coragem ou interesse para desistir de vez.

"Isso é vitimização!"... Essa expressão ficou "lindamente" exposta nas faces das pessoas de tempos para cá. Não sei bem desde quando o primeiro imbecil a propagar essa ideia começou a reproduzí-la. Mas, desde aquele momento, propagou-se mais ainda a tal expressão a ponto de as taxas de autoexterminio terem somente crescido. Mas ninguém se importa.

Pessoas que passam o ano inteiro denegrindo portadores de depressão, dedicando as raras conversas que tiveram com pessoas doentes assim para as culpar, cobrar e reclamar delas, chegam ao "Setembro Amarelo" cheias de afeto e discursos lindos - mas completamente mentirosos e hipócritas.

Ora, depressão não é opção. É doença! Ninguém destrói a própria vida e tudo o que sonhava alcançar (além de destruir o que alcançou) só para ser chamada de "pobre coitada!". Se sentir vontade de insinuar que uma pessoa depressiva grave, mais ainda refratária, se faz de "vítima", por favor: cale sua boca e saia de perto! Refratariedade é, como disse, uma sentença de morte para um depressivo grave. E entendo perfeitamente bem quem opta por deixar de viver desse momento em diante. Requer muita teimosia e amor intenso a algo qualquer da vida para resistir e persistir adiante até ter a sorte de uma morte por causa natural ou acaso natural que surgirá inevitavelmente. Cometer o autoexterminio é um ato de imenso desespero. É um sinal do quanto falhamos como sociedade diante daquele que morreu. Momento em que a dor venceu muito além da conta a capacidade de criar esperanças. E não faltam exemplos de pessoas vis que são espécimes nítidas do quanto podemos ser cruéis diante das dores do outro.

Pessoas não têm tido interesse em ouvirem-se. Isso sempre existiu, mas com o excesso de possibilidades para se comunicar de hoje, aí é que ficou descarada essa realidade incontestável - mas que tantos teimam em ignorar e até negar. Pessoas querem vencer nas conversar, vencer na vida, vencer de qualquer maneira - tantas vezes destruindo a outra pessoa. Quem não ve isso ou está ignorante ou mal informado (o que é uma redundância dizer!). Ninguém se importa com nada além de sua própria trajetória e com enaltecer sua própria figura. Mundo de marketing pessoal. É só! Todos fingem serem bons, perfeitos, prósperos. Sem nem olhar para o corpo caído no chão ao lado. Mãos que optam por não fazerem nada também se sujam de sangue. Às vezes até mais que outras...

Somos formados para sermos hipócritas. Nos dizemos cristãos. Lindo isso... "Ah, o Cristo, filho de Deus!". No máximo sabemos escrever a palavra Cristo ou o nome Jesus, mas nada, quase nada do que foi ensinado a partir dessa figura faz parte do cotidiano. Pessoas aprenderam muito mais a serem fariseus com a Bíblia que a serem seguidoras de Cristo. Por qual motivo? Amar requer esforço, dedicação e não dá lucros. Simples assim. Hipocrisia gera domínios e lucros. Enormes lucros. E em tempos de marketing pessoal, lucro pode ser tão somente uma curtida numa foto "ajudando" alguém menos favorecido. Há inúmeras selfies cheias de poses e mínima empatia em essência. Tantos que ostentam a si mesmos e não o ato de serem úteis. Mas não perderei mais tempo nisso aqui.

Costumo dizer e repito: pessoas não querem necessariamente a verdade, querem apenas serem convencidas. Se você convence uma pessoa que ela é "boa", pronto! Eis a semente de um idiota plantada. Quantos exemplos eu poderia dar? E você? Pessoas arrogantes, mas que comungam semanalmente... Pessoas mesquinhas, mas que doam o dízimo... Pessoas canalhas, mas que oram diariamente (até mesmo antes de cometerem seus crimes, pedindo a proteção do deus delas). Jesus deve chorar quando ouve seu nome saindo da boca de gente assim. 

Entendo perfeitamente os depressivos graves e refratários que desistem de viver. As pessoas não querem se dedicar a ouvir, a acolher. Não querem "perder tempo" com nada disso - menos ainda se não estiverem sendo filmadas! Na primeira oportunidade, abandonam e o doente fica isolado, cada vez mais, vendo o castelo de cartas que construiu achando que era ele uma proteção, um aconchego de amizades e amor era nada mais que cartas empilhadas que, uma a uma, vão saindo, saindo, saindo...

Acabadas as cartas desse castelo, tantos desistem de viver e escrevem sua carta de despedida. Repito: eu os entendo. Eu os entendo! 

(continua?)

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