Não creio numa vida plena, mas acredito ser possível sonhar com uma vida amena - no sentido de serem amenizadas as dores inevitáveis. Se a vida é muito curta para ser pequena, não podemos enclausurar sonhos, apequenar nossas intenções ou mitigar nossas esperanças com imposições que não nos façam sorrir sorrisos espontâneos e autênticos.
Tento deixar para o mundo algo do que penso, escrevendo. Agonias? Dores? Alegrias? Poemas? Crônicas? O que mais? Não! Não sei qual modelo me afaga mais em minha ânsia humana por paz. Catarse? Sim, um pouco. E me basta! Trazendo algo de ''Tabacaria'', de F. Pessoa, digo: espero que fique, ''da amargura do que nunca serei, a caligrafia rápida desses versos'', num pouco de mim. Eu, que ''não sou nada, não posso querer ser nada''. Mas, ''à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo''.
sexta-feira, 2 de outubro de 2020
Auto-ajuda
Todos sempre haverão de receber ditames externos de bocas avulsas que muito falam. Não raras vezes, quem vomita regras demais aos ouvidos alheios pouco sabe da própria vida. Mas ostentar sanidade mental e prosperidade material é uma moda pautada no modelo "coaching" diverso do mundo contemporâneo - onde todos nós somos potenciais lideranças, todos nós somos sonhos por serem realizados, todos nós podemos mudar o mundo...
Eu temo por esses que ensinam que todos podem tudo. Não, não podem! O que chamam de "tudo"? A quem denominam por "todos"? Alerta de exemplo idiota: quando estamos caindo de um abismo (independente das escolhas que fizemos e nos levaram até ali), não será pensar positivo que fará a gravidade deixar de existir. Ou aceitamos que vamos cair ou o quê?
Creio, todavia, que naquele momento desesperado, podemos e devemos ter gratidão pela vida que nos levou até ali. Possível? Sim. Clichê? Também... Mas creio que podemos ser gratos às pessoas que conhecemos até nossa queda. Creio até que podemos encarar a queda com um sorriso no rosto numa esperança, inclusive, de que venhamos a sobreviver ao precipício. Mas não deixará, jamais, de haver o precipício. Pensemos o que quisermos. O precipício é real.
Prosseguindo, afirmo: não sou fatalista, todavia. Acredito que planejar o futuro com passos firmes arraigados em terrenos sólidos de esperança seja algo benéfico. Só fico angustiado com tantas pessoas que gastam dinheiro com outras pessoas que prometem ter a solução de todos os problemas do mundo. Quem nunca ouviu, viu ou até adquiriu algo que prometesse alguma coisa de "sucesso"?
São as "10 dicas" das pessoas extraordinárias; os "5 segredos" dos hábitos infalíveis; os "7 passos" para o sucesso... A matemática da prosperidade. Ora, é tanta enganação que nem sei quantos segredos, dicas e hábitos há por aí em livrarias de aeroporto e bancadas de farmácias. Mas há quem compre. Há, inclusive, pessoas felizes lendo ou que passaram a ser após terem lido. Ótimo. Mas seria tão simples assim? Se há um roteiro incontestável para a felicidade em alguma obra dessas, por qual motivo há tantas tristezas no mundo? Somos burros, teimosos ou não há livrarias suficientes por aí?
Fico tentado a desejar conviver com as pessoas que escrevem esses livros. Elas devem ser muito evoluídas, como aquelas que veem o dedão machucado ao bater na quina da cama e cantam cânticos de gratidão às quinas das camas. Ou devem ser das pessoas que acordam pulando da cama e cantando às 4h da manhã... Devem, também, ser pessoas sinceras, afetuosas, prazerosas no convívio e ótimas pessoas - não somente boas enquanto profissionais e vendedoras de livros.
Ricas elas devem ser - no que diz respeito a ter dinheiro, claro!, pois tais livros costumam vender bastante. A sociedade está carente e sedenta por aplausos. Daí, promessas de alcançar vitórias são vendidas até em igrejas e templos - ou não?
Dito isso, percebo: somos uma sociedade que compra qualquer mentira somente para não aceitar a realidade. E a realidade é que não há felicidade para todos e todas. Não! Explico melhor abaixo.
Felicidade é algo individual. Para a felicidade não existe caminho certo e preciso. Afinal, já escreveram e cantaram: não existe caminho, caminhante. O caminho se faz ao caminhar! Ou estaria errada essa ideia? Para a felicidade, se dá o mesmo. No dia a dia, a gente vai descobrindo novos motivos para sorrir. Novos motivos que dão novos significados para nossos passos. E o caminho vai sendo criado bem como a felicidade (ou a ausência dela) mediante nossas decisões - ou, reforço: nossos passos em nosso caminhar.
Nesses caminhos, o solteiro infeliz torna-se um humano crente na felicidade ao ter um filho ou filha com a mulher que ama, por exemplo. O humano desempregado e deprimido encontra um emprego onde sente-se valorizado e produtivo, sentindo a tal felicidade ali. A professora que nunca sentiu-se valorizada encontra a plenitude de si no abraço de gratidão de um estudante que se graduou em alguma faculdade e retornou à sua escola primária para agradecer por tudo o que lhe ensinaram... Entendem?
Pensando assim, suspeito que a felicidade está em cada pessoa, mas não em livros e templos religiosos, p.ex. Para tal, basta que cada uma das pessoas saiba "encaixar as peças" e entender os sinais da vida, aceitando melhor as consequências de suas escolhas (gratidão!) e entendendo-se melhor quanto às escolhas novas que fará (humildade! - para aprender). Feliz seria aquele que pudesse pensar como Mandela quando disse algo como: "eu nunca perco. Ou eu venço, ou eu aprendo". Percebem?
Há alguma tentativa de dica, segredo ou passo (ou algo assim) nessa conclusão acima? Não. Se pareceu isso, sinto muito. Há apenas opinião após muitos fracassos. Pois, vivendo, entendo perfeitamente hoje que "quase que nada sei, mas desconfio de muita coisa". Tal qual Manoel de Barros, tenho também o privilégio de desconhecer quase tudo. Acho ótima a ideia de aprender e pensar mais.
Encerrando, Churchill recebe a autoria de uma frase linda: "sucesso é ir de fracasso em fracasso sem perder o entusiasmo". Eu, humildemente, acrescentaria a ideia de felicidade à do sucesso na frase original. Mais ainda, talvez sucesso e felicidade sejam, ambos, ir de texto de auto-ajuda em texto de auto-ajuda sem perder o entusiasmo. Quem sabe? Mas isso adquire um tom irônico e sarcástico que foge ao interesse real da mensagem. Encerro aqui.
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