Porém "coisas" são inéditas. Internet, por exemplo. E, do uso dessas "coisas", surgem tendências novas que se propagam e viram comportamentos que tomam parte no inconsciente coletivo junguiano. Tendências que são, na verdade, releituras de misérias humanas e virtudes quaisquer. Tenho refletido sobre a miséria que é a necessidade do culto a si mesmo.
A ideia de que precisamos de aplausos e destaque ganhou muito espaço nas atuais redes sociais. A necessidade de pertencer ao (ou sentir) sentimento oceânico que remonta à psicanálise também é bem nítida para mim. Turbas de pessoas demandando elogios - sejam na forma de comentários, na forma de "curtidas", na forma dos "likes" - vulgo joinhas... Quem não?
Óbvio que elogiar é benéfico, uma virtude daquele que elogiou, inclusive. Receber elogios por algo é excelente e pode ser sinal de que há alguma outra virtude exposta naquele conteúdo causador do elogio. Mas isso não pode ser regra, lei ou virar dependência. Acho necessário problematizar todo reforço positivo quanto ao que, de fato, ele reforça.
E o que isso tem de estranho? Tudo. Primeiro, não é novidade a reflexão de que nossa necessidade de chamar a atenção (atualmente, em publicações pela internet) seja patológica em vários pontos ao longo dos séculos. Não é novidade também que pessoas têm chamado de "amigos" outros seres que apenas acompanham suas páginas e perfis. Nada contra. É mera questão de linguagem isso. Como assim?
Ora, Bauman disse bem que um aluno dele, certa vez, lhe perguntou quantos amigos ele tinha e ele respondeu sem usar mais que uma mão. O aluno, querendo se gabar (conforme ele mesmo disse), redarguiu dizendo que em apenas um dia havia feito quinhentas amizades em uma rede social. Bauman, genial que era, percebeu e se perguntou: será que quando usamos a palavra "amigo" estamos querendo dizer coisas distintas? Ele era um homem de mais de 80 anos... Ele sabia da importância de problematizar assuntos e questões.
Fotos chamadas "selfie" são rotina. Pessoas com seu próprio braço sentem necessidade de tirar fotos de si, quando, não raras vezes, olham para outro lado tentando simular um clique despretensioso. Ora, o que isso quer nos dizer? Uma espécie de necessidade do culto a si, acredito. Não faço juízo de valor aqui, apenas uma reflexão. Será que haverá futuro a um mundo onde as pessoas aprendem desde cedo que estar em redes sociais, todas expostas publicamente, será benéfico para autoestima e saúde mental coletivas?
Será que há nessa necessidade do culto a si mesmo algo que não estamos querendo entender, pois seria uma condenação sobre o nosso próprio modo de existir e de entendermos a vida? Não sei. Desconfio de muita coisa, mas imagino ser apenas um diabo no meio do redemoinho de meus pensamentos criando essa reflexão sem propósito.
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