quinta-feira, 15 de outubro de 2020

A frase clichê de Sartre

Somos uma sociedade incrível. E eu? Dou um alerta de início: costumo ser irônico e sarcástico. Entendam o que bem entenderem... Vivemos de maneira interessante (segue a premissa acima sobre mim mesmo)... Amamos e temos sentimentos lindos de empatia e opiniões maravilhosas de amor sobre todas as pessoas que cometem autoexterminio. Porém, não amamos nada essas mesmas pessoas enquanto ainda estavam vivas. Explico abaixo:

Quem não viu, ouviu, conviveu ou até cometeu atrocidade assim: surge a notícia que uma pessoa suicidou; comoção geral! Choram e dizem: "era uma excelente pessoa!", "Eu a amava!", "Cidadão exemplar!", "O melhor amigo que tive!", "Como esse, não fazem mais...!". Hipocrisia pura! Novamente, explico abaixo:

Pessoas sofrem nitidamente! Basta querer saber, querer entender e se dedicar a ler entrelinhas. De maneira sôfrega, agônica em depressões de estágios variados - não raras vezes graves e até refratárias, essas pessoas vão vivendo sem receber menor atenção. Quem nunca viu, ouviu, conviveu ou até cometeu atrocidades como: "nossa, lá vem ele com sua tristeza... (seguido de risos!)", "Nossa, ele/a está vindo. Vou embora (seguido de impaciência!)", "hoje é aniversário dele/a. Ah, nem vou ligar, senão ele/a vai reclamar da vida e eu não aguento!"...

Ah, hipocrisia... Diluída na água que bebemos ou dispersa no ar que respiramos nessa sociedade, não sei bem... Fato é que todos consomem ou se nutrem com ela. Pessoas sofrendo são ignoradas até mesmo pelos profissionais de saúde que recebem dinheiro e a confiança desses pacientes. Sofrem, pedem ajuda reiteradas vezes, cada um/a ao seu modo. Tão logo, estão todos e todas sozinhos e sozinhas, acompanhados/as apenas de suas chagas. Por completo! E tantas e tantos desistem da vida chegando ao final de suas esperanças.

Arrisco-me a dizer que se a totalidade da população tivesse estágios avançados de quadros depressivos com ideação suicida, quase ninguém restaria. É difícil suportar. Exige uma coragem, um amor a algo (alguém ou a si mesmo, até!) E até teimosia chamada de resiliência por ensinamentos de qualquer coaching por aí. Seríamos uma sociedade formada por poucas casas e muitas lápides. Mas, espero que esse experimento nunca chegue a ser feito nem concretizado... Apesar de tantos esforços do nosso "sistema" para trazer isso.

Após um suicida surgir nas estatísticas, tantas pessoas dizem se arrepender de não terem "percebido nada" ou então de não terem "ido atrás". Alguns, não sei se mais ou menos hipócritas, até arriscam palavras como "eu poderia/deveria ter feito algo, mas não fiz". Porém, todas (?) essas pessoas sairão daquele velório e esquecerão aquela mensagem dada por aquela pessoa que se matou pela solidão e ausência de esperanças que sua doença construiu dentro dessa sociedade que criamos e somos. Na próxima oportunidade de uma outra pessoa chegar, até aquelas outras, sofrendo, vão orientar que busquem ajuda. É a maneira socialmente aceita de terceirizar a própria responsabilidade diante das condições e confidências daquela pessoa adoecida e sem esperanças, sem ninguém. Será mais um exemplo daquele cidadão arrogante e atordoado que apenas diz: "mas isso não pode acontecer; alguém precisa fazer alguma coisa!". Mas nunca é ele o "alguém".

Encerrando: Sartre disse que "o inferno são os outros". Mas, esqueceu de explicar mais sobre isso - pois somos bastante ignorantes e não entendemos quase nada de nada. Ele deveria ter deixado uma nota de rodapé ensinando que todos nós somos o "outro" dos "outros". Algo de bom pode surgir quando descobrirem essa outra parte da frase clichê que colamos nas fotos de Sartre.

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