sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Te ignorarei de setembro a setembro...

Processos depressivos são problemáticos? Sim. Exigem resiliência de todos ao redor daquela doença? Sim. Nossa sociedade tem tamanha dificuldade de atrair para si uma responsabilidade (civil, inclusive!) de acolher os portadores de doenças assim, em seus amplos espectros? Sim. Tanto que, para depressão e ideação suicida, foi preciso criar um mês chamado "Setembro Amarelo" para despertar os afetos das pessoas para essa causa bem como elevar algum interesse...

Sim, não é novidade: pessoas de diversas partes do planeta, de diversas idades, em diversas condições sociais, têm sucumbido ao desespero das ideações de autoexterminio e, até mesmo, atingindo o fim pretendido que é a morte. Porém, fazemos algo diante disso?

Vejo que em setembro, pessoas que passam os demais onze meses do ano ironizando e chamando de "mimimi", "frescura", "falta de fé" e de "força de vontade" são dominadas por um espírito de lindos dizeres... Fazem textos lindos, oratória impecável, diante do flagelo da depressão e do autoexterminio alheios... E, tão de imediato ao fim de setembro, tudo volta ao que era antes... Desdém, ironia e apontar de dedos - e outras tantas atrocidades como piadas e sarcasmo.

Hoje sei, muito mais do que acho, pois tenho convicção: tantas pessoas cometem autoexterminio dentro da doença, por causa dos seus sintomas, fato... Mas boa parcela comete essa agressão derradeira diante de seu sofrimento por causa das pessoas. O desdém, os ataques, a indiferença - que é pior que tudo, levam o depressivo a um estado de isolamento que potencializa imensamente seu sofrimento... As pessoas não apenas condenam, mas se cansam e se afastam, desistem, indiferentes...

Mesmo que haja controle dos seus sintomas, o sentido da vida está completamente desfeito nessa hora. O depressivo vê que não há nada além de sofrer para adiante. "Continuar sendo esse estorvo?". "Continuar sendo humilhado?". "Aguentar mais a nítida percepção de que todos e todas não gostam da minha presença e, quiçá, da minha existência?"...

Sim, tantos e tantas cometem autoexterminio pela ação das pessoas e não pela ação das misturas de medicações diante das misturas de percepções em seus sintomas. Mas quem se importa com isso? Não é setembro...

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