sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Deixe-me ir

De tanto caminhar, há tempos sozinho, tenho hoje os pés chatos e a alma em desalinho. Triste, angustiado, em pés descalços e corpo cansado de tanto pensar, choro por nossos fados, cansado de esperar, enquanto reflito ao caminhar. Onde havia vida, o fogo corroeu. Meu espírito cessou... A vela da esperança se apagou e a lágrima morreu. Tal vela, creio eu, era a alma entregue de um pobre sonhador que por fé a acendeu. Morreram os sentimentos e a paz que em mim havia. Percebo hoje que a morte da lágrima foi a mesma da minha.

Morto e quieto, lá estava eu com a tristeza que eu tinha. Oh, pai, o muro ainda existe? Tudo aquilo acabou, ou a queda foi um chiste? Patifes, todos eles. Esconderam toda a verdade. Jogaram meus sonhos no chão e atiraram sem piedade. Mataram meus sonhos, pai. Queimaram meus ideais. A vida cedeu à morte? Todos os homens são iguais? Há ainda, pai, os que acreditam? Há neles o amor eterno? Sei que a batina do padre caiu e hoje vestiu-se com terno. As verdades, pai, guardaram-nas num banco. Deixaram o dinheiro aqui fora, explodiram o que era santo. Pai, deixe-me ir. Dê beijos na mãe por mim.

Deitarei com meus sonhos por sobre a lama do jardim. Apenas ela sobrou, onde tudo eram flores. Deixaram a lama feita das lágrimas de perdas e tantas dores. Pai, deixe-me ir. A paz acena-me de longe. Ouço a voz daquele velho padre. Ouço o canto do velho monge. Ouço a trombeta dos anjos e ao fundo o som de banjos. Onde o céu se esconde? Tantos migraram pra lá, pai. Tantos deixaram tudo para trás. Deixe-me ir, pai. Preciso da minha paz, mas levaram-na de mim.

Deixe a terra comer, pai, aquilo que o homem criou. Deixe a terra corroer, pai, todo esse orgulho que a Deus assustou. Ele não quer isso mais. Ele não pediu isso, pai. Nós erramos. Deixe-me ir, pai. Deixe-me ir... Como se de areia ele fosse, o último castelo ruiu, pai. Avisou-nos há anos um antigo moço. Com ele, caíram as história de princesas, de amor. No lugar dele, fizeram um fosso. Jogam nosso lixo lá, pai. Não consigo mais sair. Deixe-me ir, pai. Deixe-me ir.

Nosso lugar não é mais esse. Nossa vida não é aqui. O homem, com seu dinheiro, trancou o amor em cativeiro. Sobrou a fumaça das guerras fazendo um nevoeiro que não nos deixa enxergar, nem nos permite fugir. Pai, deixe-me sair daqui. Deixe-me ir, pai. Deixe-me ir.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

À Janela


(Pintura de Glênio Bianchetti)

O poeta fechou os olhos 
Assim que os abriu pela manhã à janela.
Tudo o que via despertava-lhe tristeza.
A paisagem já lhe não era mais bela.
Tirou daquela visão a amargura
Onde tudo antes era doce.
Tirou de si profunda tristeza,
Que não caberia numa tela, 
Caso pintor ele fosse.
Onde estavam as coisas tão belas 
Que antes se ouviam notícias?
Os sorrisos, as graças, as delícias?
Como as deixaram cair pelas tabelas?
Olhava as crianças, mas não as via.
Cheirava as flores, mas nada sentia.
Procurava as árvores, onde estavam?
Milhões de dúvidas se lhe chegavam,
Mas nenhuma luz lhe aparecia.
Onde tudo se escondeu?
Desfez-se como que por encanto,
No mais profundo breu,
A paz que buscou à janela,
Assim que o dia amanheceu.
Percebeu o tanto 
E o quanto estava enganado
Sobre o mundo 
- ''Pobre coitado!"
Nada mais existia 
Além daquilo que via, de fato.
Tudo já fora muito mais 
Que esse vislumbre ingrato
À janela daquele vazio e insólito quarto.
Correu. Sentou-se na praça. 
Aguardou que tudo voltasse.
O mundo, seja lá onde ele foi: 
- ''Quem dera tão logo regressasse!''.
Com ele viriam as crianças a subirem nas árvores.
Com ele viriam as flores e algum bom perfume que espalhasse.
Com ele viria a realidade que com o poeta se importasse.
- "Oh, mundo, volte!''.
Que apareçam, o mundo e os santos.
- ''O que há além dos limites do umbigo?'',
Pensou ele consigo, gritando aos prantos.
Olhar vazio, sentado num banco.
Até hoje, lá está o poeta.
Lápis em mãos, papel em branco,
A espinha ainda ereta.
Oh, paisagem à janela 
Oh, mundo de coisas belas.
Lá está ele, pobre poeta.
À espera de lindos poemas, 
Com alma livre e mente aberta.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Sinal Fechado


Composição de: Paulinho da Viola

Olá, como vai ?

Eu vou indo e você, tudo bem ?
Tudo bem eu vou indo correndo
Pegar meu lugar no futuro, e você ?
Tudo bem, eu vou indo em busca
De um sono tranquilo, quem sabe ...
Quanto tempo... pois é...
Quanto tempo...
Me perdoe a pressa
É a alma dos nossos negócios
Oh! Não tem de quê
Eu também só ando a cem
Quando é que você telefona ?
Precisamos nos ver por aí
Pra semana, prometo talvez nos vejamos
Quem sabe ?
Quanto tempo... pois é... (pois é... quanto tempo...)
Tanta coisa que eu tinha a dizer
Mas eu sumi na poeira das ruas
Eu também tenho algo a dizer
Mas me foge a lembrança
Por favor, telefone, eu preciso
Beber alguma coisa, rapidamente
Pra semana
O sinal ...
Eu espero você
Vai abrir...
Por favor, não esqueça, 
Adeus...