De tanto caminhar, há tempos sozinho, tenho hoje os pés chatos e a alma em desalinho. Triste, angustiado, em pés descalços e corpo cansado de tanto pensar, choro por nossos fados, cansado de esperar, enquanto reflito ao caminhar. Onde havia vida, o fogo corroeu. Meu espírito cessou... A vela da esperança se apagou e a lágrima morreu. Tal vela, creio eu, era a alma entregue de um pobre sonhador que por fé a acendeu. Morreram os sentimentos e a paz que em mim havia. Percebo hoje que a morte da lágrima foi a mesma da minha.
Morto e quieto, lá estava eu com a tristeza que eu tinha. Oh, pai, o muro ainda existe? Tudo aquilo acabou, ou a queda foi um chiste? Patifes, todos eles. Esconderam toda a verdade. Jogaram meus sonhos no chão e atiraram sem piedade. Mataram meus sonhos, pai. Queimaram meus ideais. A vida cedeu à morte? Todos os homens são iguais? Há ainda, pai, os que acreditam? Há neles o amor eterno? Sei que a batina do padre caiu e hoje vestiu-se com terno. As verdades, pai, guardaram-nas num banco. Deixaram o dinheiro aqui fora, explodiram o que era santo. Pai, deixe-me ir. Dê beijos na mãe por mim.
Deitarei com meus sonhos por sobre a lama do jardim. Apenas ela sobrou, onde tudo eram flores. Deixaram a lama feita das lágrimas de perdas e tantas dores. Pai, deixe-me ir. A paz acena-me de longe. Ouço a voz daquele velho padre. Ouço o canto do velho monge. Ouço a trombeta dos anjos e ao fundo o som de banjos. Onde o céu se esconde? Tantos migraram pra lá, pai. Tantos deixaram tudo para trás. Deixe-me ir, pai. Preciso da minha paz, mas levaram-na de mim.
Deixe a terra comer, pai, aquilo que o homem criou. Deixe a terra corroer, pai, todo esse orgulho que a Deus assustou. Ele não quer isso mais. Ele não pediu isso, pai. Nós erramos. Deixe-me ir, pai. Deixe-me ir... Como se de areia ele fosse, o último castelo ruiu, pai. Avisou-nos há anos um antigo moço. Com ele, caíram as história de princesas, de amor. No lugar dele, fizeram um fosso. Jogam nosso lixo lá, pai. Não consigo mais sair. Deixe-me ir, pai. Deixe-me ir.
Nosso lugar não é mais esse. Nossa vida não é aqui. O homem, com seu dinheiro, trancou o amor em cativeiro. Sobrou a fumaça das guerras fazendo um nevoeiro que não nos deixa enxergar, nem nos permite fugir. Pai, deixe-me sair daqui. Deixe-me ir, pai. Deixe-me ir.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier


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