Vamos refletir: ''O que acontece se sua vida terminar em empate''?. Essa proposta de ideia é abordada em uma tirinha de Charles Schulz, o criador da turma do Charlie Brown, pela personagem Sally, irmã mais nova de Charlie. Em uma primeira análise, nos parece algo sem sentido, algo sem propósito, ainda mais em se tratando de uma tirinha, uma simples tirinha que tem como enredo a vida de um grupo de crianças. Podemos aprender algo com Sally...
Segundo o dicionário ''Aulete'', uma das definições para a palavra ''empate'' seria: ''Falta de determinação ou decisão; IRRESOLUÇÃO''. Bom, por essa abordagem então percebemos a aplicabilidade incontestável da tirinha em nossas vidas. Irresolução?! Quantas vezes nos deparamos com momentos de insegurança, de indecisão, de falta de coragem para agir dessa ou daquela forma como esperaríamos de nós mesmos - ou dos outros. Sempre estamos esperando algo, mas nem sempre as decisões se nos apresentam em bom tempo, resolvendo nossos problemas; portanto, torna-se difícil tomar para si a força necessária para romper amarras, vencer obstáculos alcançando a resolução dos impasses. Podemos entender agora por que Sally teve de ler seu texto a respeito da vida dos coelhos, não o segundo....
As tirinhas de Charlie Brown e sua turma nos mostram temas diversos, induzindo-nos ao riso, mas, muitas vezes, a reflexões importantes também. Vivemos em um mundo cercado por ''empates''. As pessoas tem medo de agir, de reagir, de tomar decisões...Vivemos à espera de mudanças, de apoio e incentivo, mas quando temos oportunidade e necessidade de agir, mudando nossos rumos, somos impelidos à inércia, mantendo-nos na arbitrária e costumeira ausência de movimento, numa ausência total de resposta aos desafios da vida. Somos como a professora de Sally na tirinha: preferimos ouvir sobre a vida dos coelhos...Eles são mais fáceis de serem abordados.
Vamos falar de nosso país, por exemplo. Escândalos, roubos de dinheiro público, ausência de leis aplicáveis...nossas leis são apenas letras em um papel. Aos pobres, a condenação, aos poderosos, a liberdade e o perdão. Na saúde, filas e mais filas à espera de atenção e atendimento, mas as greves são feitas por motivo da remuneração dos profissionais, nunca pela melhora na qualidade de nosso sistema de saúde público. Vários são os empates em nosso país...Somos um povo ''empatado''. De fato, nos falta determinação. Somos irresolutos! Aproveito aqui um outro significado da palavra naquele dicionário: ''numa disputa qualquer, resultado ou situação em que não há vencedor''. Quem em nosso país está vencendo diante de tudo o que temos presenciado? A impunidade...a violência...os escândalos...o comodismo de uma juventude que mais se preocupa com os goles de cerveja nas suas festividades que em brindar pela liberdade de fato. Somos um povo empatado!
Vamos falar da vida pessoal. Quantos de nós têm medo de agir, resolvendo seus próprios sofrimentos, rompendo suas próprias amarras? Vivemos num eterno empate, construindo uma vida onde precisamos ser bem sucedidos em empregos, alcançando o status social adequado aos olhos dos outros, sempre aos olhos dos outros, ao passo que não saímos do eterno empate dentro de nós em relação aos nossos próprios sofrimentos, ao que de fato somos. Preocupamo-nos apenas em alcançar a admiração e ''respeito'' de todos sobre o que representamos socialmente. Precisamos da aprovação de todos sobre os empregos e cargos que desempenhamos. Enquanto isso, as pessoas nunca querem saber sobre nossos problemas, nossa personalidade e sofrimentos internos. Eles não contam, nem nos definem aos olhos de todos - o que é uma pena.
As redes de TV nos vendem padrões de comportamento que aceitamos sem pensar, sem refletir. Somos coelhos de estimação enjaulados nas grades de uma sociedade falsa, hipócrita, imatura! Queremos nos vestir como as pessoas da televisão, queremos ter o que elas têm. Queremos ser essas pessoas.. Daí, nos fazemos, vestimos, agimos como elas, pois queremos ser elas: pessoas famosas, ''admiradas'', ''respeitadas''. Precisamos ser aceitos, mas não somos nós mesmos, pois temos medo de não nos aceitarem...Um paradoxo. Nesse processo, não sendo mais nós mesmos, perdemos nossas vidas querendo viver uma outra vida, sendo outra pessoa, nunca o que somos.Somos seres voltados para o social, nunca para a realidade verdadeira de sermos plenamente o que temos em nós ou vivendo plenamente nossos destinos, nossa caminhada. Somos de fato coelhos enjaulados! Vivemos presos em uma sociedade que se baseia em estereótipos de beleza, de status, de futilidades sem fim. O mais triste é que aceitamos sem pensar...sem pensar.
Somos apenas o que pensamos ser necessário para atingirmos o prestígio em relação à sociedade. Precisamos das roupas mais caras, dos carros mais velozes, dos apartamentos mais belos para que nos sintamos importantes, admirados e, até mesmo, invejados. Isso nos motiva a seguir em frente. Enquanto nos preocupamos em agradar a opinião dos demais, perdemos a oportunidade de viver, sentir as pessoas ao nosso lado, os amores e pessoas queridas que a vida nos dá. Optamos por ser empresários admirados...advogados famosos....médicos de prestígio. Mas, e as pessoas por trás desses disfarces? De nada importam. Nunca nos preocupamos em saber mais sobre elas, nem mesmo se somos uma delas. Preferimos seguir sem refletir, desconhecidos de nós mesmos. Somos como a professora de Sally na tirinha escolhendo aprender mais sobre a vida dos coelhos...Enquanto isso, seguimos, continuando sem saber o que acontece se nossa vida terminar em empate. Em sendo assim, permanecemos num eterno 0 x 0!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier
Caro amigo Pedro, este foi o melhor ensaio filosofico que leio ha tempos. Muito obrigado por compartilhar essas ideias belas, um abraco!
ResponderExcluirMuito obrigado digo eu, mestre. Vindo de você o elogio, fico honrado!Obrigado!
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