domingo, 31 de março de 2013

Dentes que douram


Se em certa altura eu voltasse a ter
A candura que aviva o peito que sente,
Teria sim mais lágrimas por correr,
Mas seria eu um alguém mais sapiente?

Sentimentos fazem, aos toques, tudo ser belo,
Mas já há belezas demais pelo mundo.
Em mim, sentimentos que brotam: cancelo!
Sinto menos na alma se sou menos profundo.

Há dores demais no peito de quem sente.
Sensações as tenho na audição, na visão, no tato...
Não por isso sou um homem descrente!
Sei que o ópio do amor pode fazer feliz de fato.

Quem encontra a sombra pacata do amor
Em meio ao sol escaldante da vida,
Traz para si ar puro de existência sem dor?
Ou, quando dói, de fato a dor é mais doída?

Sei que rechaço todo o amor por preconceitos,
Todos surgidos em lágrimas caídas que se foram.
Quiçá eu encontre, vencendo a dor, dias perfeitos,
Mostrando dentes, sorrindo, qual jóias que douram.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

sexta-feira, 29 de março de 2013

Devaneios



Não quero viver além desse dia!
Quem ouviu o último suspiro fui eu.
Não mais importa-me o que havia.
O hoje já é triste e suficientemente meu.

Lembranças da dor da partida,
O último e velho adeus.
Sobram apenas da alma querida
Lembranças e sonhos meus.

Aceno ao destino do longe que estou.
Perdi-me de tudo em meio à névoa das horas.
De tudo, resta-me o tempo que passou
Enquanto a vida chamava-me nas esporas!

Acordei um tanto embriagado; 
Era o álcool ou a dor que me detinham?
Dominado em aura aflita, desalmado,
Sinto o frio das dores que me definham!

                                                                           Pedro Igor Guimarães Santos Xavier   

Prelúdio


Algo me inquieta,
Mas não sei por onde começar.
A vida torna-se incerta,
Enquanto tudo passa sem findar.

É o tempo que não cala
A voz do destino que se manifesta.
Em tudo há algo de dor, e algo me fala
Que estou só: nada me resta!

Extingue-se todo o amor,
Em meio a dor do dia.
Durmo pensando na flor
Que brota além da terra fria.

Sozinho, ao travesseiro,
Denuncio-me em suspiros meus.
Sou ouvidos que ouvem primeiro.
Grito: ''morte!'', ao sentir-me  em breu.

Pena dos pesares infindos
Da vida de todos que se doam.
Aos sonhos que chegam: ''bem vindos!'',
Mas quanto irão durar antes que morram?

Na terra que piso, sonhos esfacelam-se.
Caem ao chão molhados em lágrimas.
Denotam o sofrimento que entregam-se.
E em meio às dores, restam lástimas!

Mundo material, inquieto, capitalista...
Como posso aguentar o atual momento?
Mundo animalizado, torpe, materialista...
Só a morte isenta a todos do sofrimento.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Le matin


Quis vender minh'alma ao amor,
Mas roubaram-na de mim antes disso.
Resta-me a chaga aberta, apenas isso
É tudo o que ficou em meio à dor.

Dói, estampada na cara, a morte que vivo
Caminhando por entre tantos que não sabem
Que tudo externo é algo para que parem
E pensem que estou bem, pelo passo altivo.

Como pode o amor ser terra tão perdida.
Escasso nas ruas, nos guetos, nas cidades...
Ser algo tão sublime, mesmo em inverdades,
Todos sabem quão bem faz amar na vida.

É triste saber que a morte segue a existência,
Mas morto mais ainda é quem em vida não amou.
Quem em vida não deu-se ao desfrute ou calou
A boca aberta da fome de amar, em tal demência...

Corrói o osso a dor do desamor.
Dói a mente do profeta toda tristeza
Que vê-se em dissabor a total aspereza
Do não amar que transmite-se em dor.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

Páscoa

(das tirinhas de Charles Schulz)

Carregam, aos berros, um estandarte!
Homens, simulando um pastor cego,
Guiam ovelhas as quais me nego
A ser do rebanho alguma parte.

Do todo, entre contextos cruéis,
Busco o otimismo nesse momento.
Mas juro a mim mesmo: não aguento!
Onde está a lógica ou a fé desses fiéis?

Na páscoa trouxe-nos o exemplo
Um homem abnegado em busca da paz.
Mas dela, hoje, o que se faz?
Jesus morreu e venderam seu templo.

Alma sublime que nos veio
Trazer mensagens do que é eterno.
Entre tantos pecados, estamos no inferno?
Qual mundo é esse, conosco de permeio?

Finda-se outra semana dita santa.
Todos aguardando doces e chocolates.
De nada adiantam reflexões ou debates...
Rebanho acomodado com nada se espanta.

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier