terça-feira, 25 de junho de 2013

O velho despenteado, de barba mal feita e solitário...


Olho para as ruas, vejo os faróis acesos. Brilham dentro dos carros mentes cintilantes que mal sabem de sua força ainda por brilhar. Um homem passa à frente de todos, mal sabendo eles quem o mesmo era. Nem o próprio homem mais o sabia... Eram tempos difíceis.

Um dia, acordou mudado aquele homem. Olhou-se nos espelhos de casa tentando ver mais de uma visão além de seu rosto lamentavelmente destruído pelos anos, pelas lágrimas... Será que sua face foi levada junto dos momentos de pranto passados? Ele não era mais tão jovem como esperava ser até há poucos dias atrás - parecia isso, pelo menos. Ele era apenas um velho despenteado, de barba mal feita.

Pegou seu último charuto e o fumou antes de sair às ruas. Queria despedir-se naquele instante, aos tragos...Suspiros esfumaçados. O homem largou o toco daquele derradeiro charuto. Olhou a foto de sua família, beijou-os naquela que era algo de uma tela, uma pintura para ele. Não era uma mera foto como tantas outras. O dia da despedida...

Sozinho, ele saiu de casa como lhe era de costume há alguns meses. Sem rumo, sem algo além da companhia de sua velha barba, seus cabelos despenteados e suas roupas mal trocadas e mal limpas.. Ele, de fato, era apenas um velho despenteado, de barba mal feita e tristemente solitário!

Os vizinhos deploravam vê-lo naquele estado, mas nada faziam. As cartas de cobrança acumulavam-se no alpendre, caídas no chão; a caixa de correio há muito estava repleta de papéis...tantos papéis. Nenhum deles traria novas esperanças, por isso não eram mais vistos pelo dono daquela casa, aquele que era um mero velho despenteado, de barba mal feita, solitário e tão sabidamente carrancudo...

Tudo naquele dia parecia ainda mais vago. Parou no bar do seu velho amigo que nem mais puxava assunto com ele, pois sabia das dificuldades e da clausura em que seu amigo, aquele velho despenteado, barbudo, solitário, carrancudo havia criado em si mesmo! Serviu-lhe duas, três, quatro doses do velho e tradicional whisky como há tantos anos. Como desde há alguns meses o fazia, nem cobrou de seu amigo pelas doses devidas. Entendia seu momento e, sem esperar nada em troca, olhou e o viu saindo de novo por onde entrou: a antiga passagem, a porta do bar. Dessa vez, naquele dia em especial, saiu ainda mais sem rumo...

Era um momento difícil. Para todos, aquele era apenas mais um dia comum na vida triste daquele velho despenteado, de barba mal feita, solitário, carrancudo e aparentemente sem vida. Era ele apenas mais um nas ruas, sem ninguém para ter com ele dois ou três dedos de prosa agradável. Ele precisava conversar, chorar, desabafar. Saudades ele tinha de sua esposa, de seus filhos... Cada um desses representava apenas meras lembranças naquela cabeça atordoada. Assim como o dono do bar, todos que conviviam com ele evitavam qualquer interação. Tinham medo das respostas mal criadas daquele velho despenteado, de barba mal feita, solitário, carrancudo, sem vida e dito ''deseducado''. Daí, não puxavam mais assunto a pretexto de estarem respeitando seu silêncio duramente imposto como conduta habitual.

Era mais um dia, mas não um dia qualquer. Era ele, para todos, apenas mais um homem no mundo. Era apenas mais um solitário senhor cheio de lembranças ruins, ou boas, tão pouco interessava... Tudo havia perdido sentido: a vida, as conversas, a casa, a barba, os cabelos... Nada mais importava. Nada mais ali era dele, ou para ele, pois o que ele amava perdeu-se em uma tragédia que fixava-se em suas memórias como chaga aberta, sem cura aparente. Ele era um homem solitário assombrado pelo seu passado recente. Ele era apenas mais um homem, mas ele estava ali e ninguém o notava.

Porém chegou o derradeiro instante em que ele enfim fora notado, seu último momento de vida. Todos viram aquele homem caído no chão, sem vida, ao pular da mais alta ponte daquela cidade tradicional repleta de carros e de gente, mas sem corações amigos, sem conversas agradáveis, sem causas ou motivos aparentes para existir - pelo menos assim era vista por aquele homem. Vários que ali estavam choraram de pavor, de pena, sabe-se lá de quê. Afinal, era triste ver o fim de um ser naquela cena, daquele jeito. Era o fim de uma vida. Era o fim daquela história. Era o fim daquele velho despenteado, de barba mal feita, solitário, carrancudo, sem vida, ''deseducado'' que, simplesmente, estava doente de tão triste, mas para sua velada perplexidade: isso não interessava a ninguém!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

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