domingo, 7 de julho de 2013

Tela em branco



Ela estava ali enquanto eu, de longe, a olhava. Era triste saber que meus olhos eram apenas uma tela em que ela pintou-se qual musa intocável. Embora meus olhos a fitassem, ela, nem por um instante, suspeitava de minha atenção estar ali nela. Olhos vidrados! Meu atrevimento, entretanto, não chegava ao ponto de permitir a mim aproximar-me ou muito menos tocá-la, dizer algo. Ela, intocável para mim, ocupava um ponto peculiar no espaço: o centro. Ao redor: todo o resto. Pouco importava o que havia nele. Ela estava ali, comigo ao redor girando junto do resto do mundo. Coração pulsando, alma balançando, enquanto o dia passava segundo a segundo comigo ali, em devaneios inertes, sonhando. Eu permanecia parado, admirado, estarrecido mediante minha pequenez naquela cena. Era eu apenas parte do resto que em torno daquela pura imagem girava. Daí, ela, saindo em passos curtos e graciosos, atravessou a rua, sumiu das minhas vistas sem nem mesmo saber-se admirada... Não soube que, a partir de então, meus olhos não tinham mais a quem olhar. Dali em diante, tela em branco, tudo voltou a ser.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier 

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