A quem enganamos? Somos capitalistas. Adoramos o capitalismo. Adoramos consumir, gastar. Adoramos o gosto do gasto! Adoramos esbanjar e cumprir as metas que se nos impõem! Sim, impostas: pela mídia, pelos outros, pelos olhares atentos e desdenhosos alheios para o que tenhamos aquém das posses deles. Adoramos estipular metas capitalistas de gastar.
Quem estipula metas de ser alguém melhor para o ''novo ano'' logo esquece a promessa. Alguns até mesmo riem dizendo ser difícil. Mas quem esquece a meta de comprar uma TV nova? Ou um carro novo? Ou o apartamento novo? Ou o que mais houver a ser comprado a partir dos sonhos de cada um? Vivemos por desgastar o conceito de viver para conquistar riquezas a serem gastas em matéria, pura e simples matéria que torna-se automaticamente baluarte do status que todos almejam ter: admirados, invejados, requeridos e queridos... A TV ensina-nos e insistimos em aprender a ser meros consumidores!
A felicidade em meio a tudo torna-se meramente um momento final que dá-se do somatório de todos os bens que almejam-se. Porém, nunca há tantos bens quanto sonhamos, logo, não alcançamos a felicidade. Estamos sempre a gastar para, a cada nova compra, nova ''conquista'', tentarmos estar mais próximos do acúmulo de coisas devidas que temos por necessárias à felicidade que, concluímos cedo ou tarde, não chega a nós - meros consumidores que somos!
Consumimos nossa ética, nossa religião, nossas famílias, nossos conceitos de amor, auto-amor e fraternidade. Tudo na busca cega por poder, riqueza, autoridade, dinheiro! Queremos dinheiro! Mais e mais dinheiro! Somos movidos a dinheiro! O dinheiro nos move! Somos cegos, vis, vãos e fúteis!
Quem tornou-nos assim? A TV? Alguém em particular? Não sabemos! Não há um ser específico e nominado. O único rosto o qual devemos culpar e que mantém-nos nessa realidade podre é aquele que vemos diante do espelho. Mas não olhamo-nos nos espelhos! Não somos a nós mesmos que vemos quando estamos ali diante do reflexo de nossa imagem. Vemos apenas o cabelo despenteado, a maquiagem mal retocada, os dentes a serem branqueados na próxima consulta ou a roupa que nos forma (ou deforma...). O que há de nós mesmos no reflexo que temos e vemos? Reflexo de nós, isso sim, é o que somos! Um devaneio, sim, eu sei! Mas nossa realidade intrínseca, pessoal, esconde-se por detrás da obscura profundidade do ser além do olhar costumeiramente triste que trazemos apesar de nossa sensação de felicidade adquirida aos gastos...! Tantos gastos...! Tanta infelicidade por toda parte!
Não somos felizes! Não somos quem deveríamos ser. Pelo que vejo, estamos confortáveis demais em nossos sofás diante das nossas TVs de sabe-se lá quantas polegadas. Tamanha é a tecnologia que compramos, mas nenhuma delas tira-nos a cegueira habitual que carregamos voluntariamente. Somos consumidores irreflexivos; cegos, isso sim! Adoramos o gosto dos gastos que temos, mas a vida perde a cada dia mais o seu devido gosto com tamanho mar de ignorância em que afundamos, de consumismo desequilibrado.
É o que temos? Não? Sim? É o que vejo! É o que olho no espelho para além de meus olhos no reflexo que testemunho ao ver-me! Talvez tenha chegado a hora de comprar um novo espelho - ou, caso seja possível, um novo par de olhos!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

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