domingo, 23 de fevereiro de 2014

Amanheçamos

A noite caiu, mas o sol ainda brilha? Como poderia? Sim! A noite caiu, pois ela estava em mim. Percebe-se por vezes tarde demais que as horas passaram, a vida passou, o dia acabou e o sol não mais está ali! Perdeu-se todo um brilho que em nós e de nós via-se. O céu, camuflado em tons de negro e cinza, perde seu brilho. Todavia, mesmo a noite, ao máximo esforça-se - num lampejo de expectativas de novo brilho, um vislumbre de clarão - no luar que, das esperanças que trazemos cá dentro, em nós acende-se tentando nortear caminhos durante esse anoitecer.

Cabe a nós ter fé, refletir, aprender e seguir! Após a noite, segue o dia! Porém, cabe a nós e em nós: ''amanhecer''! Sim! Despertar o sol que nos brilha de dentro! De nada vale passar a vida seguindo rumos numa noite que trazemos dentro de nós! É preciso mudar, criar, inventar novos sonhos, novas inspirações, nova harmonia dentre a balbúrdia que por ora tornou-se nossa vida. Não vale de nada perder tempo perdendo-se em lágrimas e reflexões vãs! Cabe a nós concluir em cada erro a devida falha que, apesar de nosso crivo imaturo da razão, permitimos passar e concretizar-se. 

Rumo ao amanhã. Que passe a noite! Amanheça o dia. ''Amanheçamos'' todos nós e, disso, eis que surge um novo mundo - nem que ele todo seja apenas meu! Afinal, o mundo nada mais é que um pedaço ou extensão de nós - mas disso caberia outro texto. ''Amanheçamos'' em nós para novos dias! É o que cabe por ora aprender!

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

De que vale?


Naquele velho pedaço de chão, enterrei minhas cinzas, meus restos... Tanto faz! Era apenas o que restara de mim. De longe, uns ainda olharam sem saber que ali eu estava. Pudera! Em pedaços, como seria reconhecido? É exigir muito dos olhos alheios - habitualmente já tão desatentos...

O que mais me entristece é eu mesmo não ter me visto enquanto virava restos, decompondo-me em cinzas. Estava eu, ali, em puro pó, desfeito! Eu passei a ser aquele pequeno pedaço de chão pisado surrado. Passei por muito tempo apenas enterrando em mim coisas! Esqueci-me de mim!

Quis tanto ser algo útil e belo aos olhos alheios que distanciei meu corpo de minha alma, minha ação de meu coração. Passei a agir pelos outros - ou para os outros? Disso, vejo: esqueci-me de mim!

Não posso mais hoje chorar ao ver-me cinzas. Foi a escolha que fiz - mal sabendo ser a que me cancelava! Mal sabia eu estar sentenciando-me a um fim tão torpe...

Sim, sou um mero pedaço de chão contendo as cinzas do ser que fui, ou pensava ser, ou poderia ser, mas de que vale revolver essa terra, catar as cinzas se é que ainda seja possível? Delas eu conseguiria montar o "eu" feliz que era, o "eu" feliz que planejei ser? Acho que não! Cabe-me apenas ser pedaço de chão, emaranhado de terra e cinzas...

Resta-me talvez esperar a chuva! Que ela bata e, da terra que sou e das cinzas do que fui, tornando-me um outro ser de barro, faça-me ser qualquer outra coisa.

É hora de esperar então a chuva benfazeja! Deixar passar o tempo. Triste é pensar que já hoje eu mesmo possa ter passado, estando fadado a permanecer ali: naquele velho e esquecido pedaço de chão, em pedaços...

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Pássaro preto

Um pássaro preto passou voando rápido e baixo. Era um risco que relampeou à minha frente naquele entardecer, mas suficiente para escurecer minha visão e minha paz que havia. O pássaro preto voou para longe. Passou deixando um ponto preto na paisagem que diminuía a cada instante até, enfim, desaparecer longe de mim...

Momentos ruins são assim. Pássaros pretos! Passam! Quando dotados de cores alegres, poderíamos chamar, em outra metáfora, tais pássaros de momentos de alegria, de prazer etc. Todos são pássaros. Todos vêm, tomam parte da paisagem, brilham mostrando-se. Mas são sempre inquietos e passageiros. Uns mais rápido, outros mais devagar. Todavia, todos os momentos são pássaros que passam! 

Nós devemos passar. Não digo apenas sobre seguir a vida, mas passar por cima (ou através) dos momentos que porventura ainda marquem o presente (ou a alma) de alguma forma. Não se pode querer manter um pássaro na paisagem por mais tempo que o seu devido momento de fato na cena. Se chorou? Enxugue! Pense, repense e passe pelas lágrimas. Deixe novas cores colorirem sua paisagem interior, sua alma, seu dia. Passe pelo preto deixado pelo pássaro que, por sua própria vontade, passou entristecendo-te! Momentos sempre passam. Repito: momentos são como pássaros.

O pássaro preto, então, passou! Eu o permiti passar. Deixe-o também passar se ainda o aloja em sua imagem mental da paisagem. Ele, entenda, foi-se! Não percebem-se pássaros de outras cores que estejam passando quando estamos ocupados em manter a visão em pássaros que já passaram... Desfrute da paisagem que tens à frente! Pode ser que, de fato, alguns pássaros pousem e mantenham-se por um tempo maior. Mas não ficam por muito tempo. Não os mantenha ali mais do que de fato já ficaram. Todo voo e todo pouso seguem o devido curso do respectivo tempo que devem durar. Não mais, não menos... São em si o tempo necessário! 

Cabe-nos deixar passar o preto, a escuridão de momentos ruins e lembrar-se da existência das outras cores: alegres, mais ou menos radiantes quais sejam elas. Atentar-se e respeitar cada uma das outras cores que, em pássaros efêmeros, trazem-nos outros momentos nos dias. Esqueça seus pássaros pretos! Deixe-os passar. 

Seria sim, concordo, uma metáfora dotada de pouco valor literal, talvez até de pouco brilho intelectual. Mas metáforas são assim, simulam semelhanças que para uns nada trazem de sentido, mas que traga-o para alguém - nem que seja apenas para mim...

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier 

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Afinal, de quem é a Copa? De quem é a culpa?

Estamos em ano de Copa. A Copa é o que nos interessa? ''Copa para quem?'', ecoa em gritos roucos pela internet. Afinal: não somos o país do futebol? Em 2013, várias manifestações durante o evento da Copa da Confederações. Brasileiros nas ruas e outros nas prisões - por ter estado nas ruas... Porém tantos outros nos estádios. Brasileiros, todos! Seguiu a partir de então novamente o circo nacional ao redor da bola. Novamente, sem entender, reflito: de quem é a Copa? Mas mudo a pergunta: de quem é a culpa?

Brigam, xingam a FIFA, a presidente do país, os corruptos... Brasileiros xingam tudo! Porém, quando foi a hora em que de fato agimos diferente? Quando fomos melhores? Furamos filas, jogamos habitualmente lixo nas ruas, entendemos mais de novelas que de filosofia, ou política, ou qualquer outra coisa. Como um povo assim, que age de forma tão débil, poderia ser diferente? Sim, houve um lapso de despertar do dito ''gigante'' nacional, nosso povo; porém, bastaram os gols que fizeram o Brasil sagrar-se campeão daquele torneio e tudo passou! Morre novamente o gigante! Morreu o país da Copa e a culpa é do povo que não se faz nem de fato se fez, em tempos recentes, definitivamente ''gigante''.

Somos habituados a ligar nossas TVs. Pronto! As TVs ligadas e lá estamos nós prontos para mais uma manhã, um almoço, uma tarde livre, uma noite... Sempre há tempo para a televisão! A TV ocupa mais nossos ouvidos que nossas conversas em família, ou entre amigos, ou nossos olhos lendo livros, contemplando a arte escrita e tão sabidamente produtiva (embora um pouco esquecida atualmente!). 

Somos habituados a achar lindo tudo quanto nos salta aos olhos em novelas, séries, jornais... Tudo nos é lindo! Feio é o nosso país? Correto? Tão corrupto, coitado! Nosso país não é nada. Nosso povo é alguma coisa, isso sim - mas não sei ainda o quê! Nosso país é meramente um território representado por uma bandeira e organizado em um sistema democrático e livre - em teoria. Isso é nosso país, mas quem o faz somos nós: povo! Mas não somos unidos nem definitivamente uma sociedade, apenas somos concidadãos por obra da geografia aplicada à nossa naturalidade na Terra. 

Esperaria muito de 2014 caso de fato fôssemos algo diferente ou um gigante desperto. Porém, acredito que teremos apenas gols, cerveja, novelas e ligações para BBB; nada além do comum. A Copa? Sim, virá e será aplaudida - talvez com algumas vaias roucas quando as câmeras filmarem algum político, algo assim... Mas o hino nacional continuará apenas sendo a trilha sonora do nosso futebol, não o cântico que retrate nosso povo motivando algo de patriotismo. Como disse Renato Russo na letra da música ''Perfeição'': ''vamos celebrar a estupidez humana...Nosso passado de absurdos gloriosos''; somos estúpidos! Ele estava certo! Temos apenas um passado de absurdos gloriosos, antigos e recentes! 

Sigo sem entender. Copa? Para quem? Culpa? De quem? Alguma coisa há de surgir em 2014 nem que seja apenas uma conclusão que nos retrate a realidade ou, conforme tantos esperam: um novo grito de campeão para nossos ''heróis'' da ''amarelinha''. De minha parte, seguirei como o tatu, mascote da Copa: escondido na minha toca - afinal, todos nós cá estamos deslumbrados com sombras na parede. Apenas sombras na parede é o que vemos de nossa realidade. Salve o mito da caverna, digo, da toca - nesse caso!

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier