terça-feira, 11 de novembro de 2014

Garganta seca

Um dia li o céu que havia por detrás das montanhas. Era um céu escuro, enevoado... Sem água que se chegasse para breve em nuvens, quais fossem, passageiras. O céu que havia era sombrio, seco - mais seco que o chão que se lhe mostrava em antítese na naquela natureza morta. 

Olhei bem profundamente procurando algo de esperança na luz do sol que secava meus olhos. Nada 
vi! A luz cegou-me a secar minha visão... Parti então rumo ao alto da montanha. Talvez de lá, bem do alto, eu pudesse ver algum lampejo de esperança em chuva a cair por sobre mim e meu pasto. Não! Nada vi.... Deu para ver apenas lá embaixo meu gado a morrer da seca, minha casa a esquentar-se num calor sem fim, minha água aos poucos baldes que restavam na varanda trazidos todos eles no galope lento da minha égua manca e magra... O córrego, não era mais que lodo agora.

Havia ali um pouco de água aos baldes para trazer consolo... E eu? Debalde, lutava contra Deus que não mais trazia chuva alguma. Orei, chorei, rezei o quanto pude, mas cá na terra seca nada caia fazia tempo... Cactos se riam de mim quando eu passava - senti bem num dia desses; tinha certeza! Chuva era por ora mera memória intrépida na cabeça inquieta que eu trazia, sedenta por goles d'água cristalina do rio sem fim que antes passava perto de casa...

As flores do jardim morreram. Morreu todo meu quintal, Senhor! O açude construído por meu avô represava apenas memórias dos tempos idos de chuva antiga... Era tamanha a seca que calava as gargantas secas! Memórias...Memórias...

Mais uma vez, tornei a olhar pro céu teimando, num último suspiro, em ver algum vislumbre de chuva que umedecesse minhas esperanças. Mas não... Nada! Era tamanha a seca que secava os olhos só de olhar... 

Mariazinha na cozinha não fazia mais chá. Nem mingau ela fazia; nem muito menos sopa... Mariazinha sabia apenas chorar - mal sabia ela que lágrimas eram resquício da única água que nos restava...

Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

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