O menino inquieto, arredio aos olhos do pai, saiu fugindo de casa. Era noite, mas ele nada temia. Medo ele tinha de casa, dos berros, dos estilhaços, copos voando, pratos... Ele não queria mais aquilo.
Saiu de casa. Nunca em seus sete anos havia sido tomado por tamanha coragem. Quisera ele vencer as mazelas de sua casa, transformar em lar. Era o que ele queria, mas era missão além de sua condição de menino...
Viu a noite que caiu sobre a cidade escura. Viu carros passando e sendo cada vez mais poucos, poucos... E ele seguia só! Trazia como num alforje um par de sapatos, uma garrafa d'água, um brinquedo velho e adorado dado por seu avô... Nada mais além disso e dois pacotes de biscoitos.
Viu na praça casais em encontros ruidosos; cães vadios em meio a homens vadiando; viu a escuridão caída sobre a cidade a cada instante mais calada, fria... Eram ele e os arranha-céus a paisagem que traria na memória.
Trazia na cabeça os gritos do pai, as agressões, a mãe indefesa que também o agredia... Afinal, percebeu ele, cada forte bate no fraco a que tem acesso. Verdade triste, não é? Vivemos numa selva! Vivemos numa selva - ele sabia sem nem mesmo poder pensar muito profundamente no assunto! Era apenas uma criança perdida nessa selva. Era apenas mais uma criança...
O dia nasceu. A noite passou. Outros dias nasceram. Outras noites passaram. Não mais voltou, nem o procuraram. Talvez fosse um pouco de amor dos pais esse ato, afinal, quem não saberia que aquela casa era inabitável para uma mente pueril, inocente? Sabe-se lá o que passava na cabeça daquelas pessoas ou de quaisquer outras... Sabia ele apenas que tudo era simplesmente retratos de uma selva.
Com fome, aprendeu a pedir esmolas. Era, a partir de então, apenas mais um garoto bandido e vadio perdido, sem pai nem mãe, sob os olhos de desdém da imensa maioria dos selvagens que perambulavam pela selva morta na forma de transeuntes atarefados. Ele franzia a testa, olhava nos olhos de quem o encarava com nojo. Sabia de seu valor, mas algo de raiva despertava dentro dele. Sabia que lhe faltava tudo, entretanto... A primeira coisa que faltou-lhe foi o lar!
Ele sabia, mas era tarde demais pra ele - muito embora fosse cedo demais para uma vida que estava apenas começando. Havia nele toda uma vida pela frente a seguir... Mais nada lhe pertencia nesse mundo, apenas a vida que tinha - que, entretanto, não pediu para ter!
Ele sabia, mas era tarde demais pra ele - muito embora fosse cedo demais para uma vida que estava apenas começando. Havia nele toda uma vida pela frente a seguir... Mais nada lhe pertencia nesse mundo, apenas a vida que tinha - que, entretanto, não pediu para ter!
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

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