A Medicina não mais me encanta. Antes a tinha por pura, altruísta, algo de santa, hoje apenas tenho, extraída dela, decepção. Disso tudo, decepcionado vivo e nada mais me espanta. Sonhei um dia em ver a luta contra a morte, contra as doenças, contra, também, as tantas crueldades e desigualdades. O que vi? Nada além de opulência, estandartes insólitos de um status quo que beira a inocência de tão pueril é o humanismo médico atual que está à mostra.
O homem, sim, como um todo é vil. Cruel! Vive de aparências. Ostenta gritos hipócritas e verborrágicos contra desigualdades e em favor do bem - mas não age contra o mal. Estamos confortavelmente entorpecidos - já disseram! Somos humanos antes de médicos... Talvez seja por isso que a chaga a qual vejo na Medicina atual, real, diverge daquela arte médica dos meus sonhos. Percebi então que, na verdade, tudo era uma trave no meu olho com o qual eu enxergava errado, enviesado, crendo que algo de bom estaria à frente do sonho da formação em que me embrenhei, mas caí do cavalo - não é assim que dizem?
"Cavalo de Tróia", digo sorrindo para mim mesmo - afinal, sorrir em meio à desgraça é o que resta de graça a extrair dali, talvez em esperança. Sonhei encontrar uma luta do bem, pensando que haveria no dia em diante à formatura um emaranhado de profissionais lutadores, engajados, vencedores dependendo se dessem sorte ou não nos sonhos almejados. Mas não! Permaneço caído deitado sobre sonhos mortos. A Medicina que vi, praticada aos berros roucos, atropelou-me...
Corrijo meu engano: não foi a Medicina que me decepcionou, mas sim minha visão errada na qual baseei todo um sonho. Esqueci-me de que a arte médica é dada pelas mãos dos homens e são eles que decidem por quem serão guiados. Eu pensei que o norte seria a prática do bem, Deus, o amor, o altruísmo... Porém, esqueci-me que o homem guia-se pelo poder, pelo status, pelo egoísmo. O conforto de fato entorpece e a Medicina que sonhei um dia, em meio a isso, desvanece!
Levanto do leito, da cama na qual, de longe, o mundo espreito. Cansei de ver a realidade tal qual tem sido! Cansei de sonhar para além do que posso, para além do que consigo. Achei que mudaria algo, mas de fato vejo-me caído. Achei que seria algo... Porém, sou apenas mais um. Diferente? Talvez! Mas apenas um em meio ao mundo insosso que temos. Sopa amarga de gente podre da qual a realidade bebe. Somos uma humanidade hostil ao bem e, com isso, a nós mesmos! Há sonhos por serem sonhados, sim, em conjunto, mas como esquecer ou superar essa amostra de humanidade que temos, tão torpe e tão vil, que vem junto?
Que Deus vele pelos que ainda sonham! E que haja sonhadores a trilhar caminhos de luz pelo labirinto o qual estamos fadados a percorrer...
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier

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