Parei e pensei: nossa sociedade está sofrendo. Estamos doentes? As redes sociais vulgarizaram com tamanha exposição as nossas morbidades afetivas - mentais, psicológicas, ou sabe-se lá qual definição dar. A exposição desenfreada de si mesmo numa espécie de grito rouco de: "eu esto aqui!". A porta aberta do mundo virtual... Beleza? Ostentação? Amor - ou falta dele? Alguém percebe o que tem ocorrido? Pode ser, entretanto, apenas uma doença dos meus olhos que teimam em enxergar errado...
A realidade das redes sociais através da ultra-exposição aos olhos alheios pode ser a etiologia desse distúrbio, creio eu. Ainda não sabemos lidar no dia a dia, na vida real com a opinião alheia, como saberíamos lidar com os olhos (atentos ou não) e opiniões nas redes sociais das pessoas com quem temos esse contato? Expressões de felicidade acabam por serem resumidas num sorriso calculado na foto (tantas fotos...) ou na imagem de casais felizes "trajados" em abraços (por vezes) aparentemente forçados em fotos premeditadas que trafegam pela rede. Seriam ou não exemplares de: "olhem para mim" ou "olhem para nós!" - cá estou eu, veja. Será? Acho que precisamos ser notados, comentados, curtidos, falados para nos sentirmos vivos... Não é que isso seja uma doença, claro, mas uma exposição da nossa carência de nós mesmos, talvez.
Não sabemos estar sozinhos no mundo hoje, concluo. Parece causar alguma dor ou algo de desconforto a solidão testemunhada. A opinião alheia deve, de fato, causar alguma chaga no peito - pode ser isso. Porém, qual a dor que causa estar sozinho? Será tão real assim tamanho apreço dado ao fato de ter alguém do lado na foto? Esse alguém estará nas próximas fotos daí há alguns meses? Vejo uma ânsia imatura de mostrar-se "em relacionamento'', ou acompanhado de alguma forma. Há tantos casais felizes ''eternamente" que não duram nem mesmo um ano. Há também os tantos solteiros convictos que apaixonam-se perdidamente e se calam deixando a dúvida: eram tão convictos assim ou a sua solidão também doía? Há tantos rostos deformados por sorrisos falsos em fotos de perfis de redes sociais... A felicidade que não vem de dentro, mas sim da opinião alheia (de fora) para dentro de si. Entendem? Onde estará de fato a felicidade? Fora? Dentro de si mesmo? E do amor? Haverá um dia a força interna que vence os olhos alheios com auto confiança e auto estima suficientes? O que ocorre conosco? Seremos enfim donos de nossos próprios narizes ou precisaremos sempre de testemunhas para estarmos convictos ou não do que somos e temos?
Onde há felicidade em alarde, descreio do motivo do sorriso exposto na foto. Claro, sou sabidamente pessimista, mas é o que penso por vezes - teimando comigo mesmo se estou errado ou não! Será que o apreço pela beleza, ou pelo relacionar-se, ou a ostentação propriamente dita de vidas felizes está diretamente relacionado à felicidade bruta, pura, real? Será que todo esse alarde de felicidade estampado em perfis de redes sociais não seria mais uma das atrocidades do mundo que tanto nos tortura? Sim, nosso mundo não vai bem. Melhor seria ostentar algo de felicidades, mesmo que irreal? Será que criamos mais uma forma de sofrer, torturando-nos através da vida virtual? Somos carentes, percebo! Mas é parte da condição humana querer bem a alguém, querer sentir-se querido também. Todavia, há tanto amor e felicidade assim como aparentemente nos é dado pelas redes sociais?
Penso com meus botões que tudo isso que testemunhamos pode ser parte das atrocidades do mundo sofrido que temos vivido. Porém, pelas redes sociais, hoje temos mais voz que há tempos atrás e, com isso, estamos mais disponíveis (e vulneráveis) aos olhos alheios. Atrocidades da carência bruta no mundo. Espero que eu esteja errado. Pensando assim, sorrio para a foto e me deito sozinho.
Pedro Igor Guimarães Santos Xavier
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